EMPATIA HISTÓRICA

O bonde capotado e o vidro quebrado de um banco: um exercício de “empatia histórica”

A revolta de ontem e a revolta de hoje.

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O bonde capotado no meio da rua, no início do século XX, e os vidros estilhaçados do banco, no início do século XXI.

Uma das coisas que aprendi, ao longo da graduação em História, foi a importância do conceito de “empatia histórica”. Quando estudamos o passado, além de buscar o conhecimento sobre ele, é preciso compreender as motivações e as ações tomadas pelos sujeitos, em determinado período.

No início do século XX, a cidade do Rio de Janeiro abriu as suas portas para a chegada da”modernidade” (a conhecida “Belle Époque”). Almejando transformar o centro carioca em um cartão postal (elegante e majestoso como Paris), as autoridades passaram a alterar o espaço, de forma profunda.

Os cortiços foram demolidos e a população que ali habitava foram despejadas à força. Onde antes havia um teto sobre a cabeça de várias famílias, a partir daquele momento, surgiriam as primeiras avenidas, para que os bondes pudessem passar, representando o “Progresso” e a “Civilização” brasileira.

Não bastasse terem perdido as suas moradias, os grupos menos favorecidos foram viver nos morros e nas periferias da cidade do Rio de Janeiro (início da constituição das favelas cariocas), longe do centro e de todas as “modernas mordomias”, as quais eles não podiam pagar, nem consumir.

Vistos como os “marginais” e os “malandros”, os grupos mais carentes passaram a ser vistos também como os “focos das epidemias e das moléstias”, que atingiram – de súbito – a cidade do Rio de Janeiro. Para conter o avanço das doenças, uma série de médicos higienistas partiram em direção dos morros cariocas.

A população periférica que se encontrava privada de todos os seus direitos sociais, agora teria que enfrentar uma “tal de agulha” que uns “homens de branco” iriam enfiar em seus braços, sem saber o porquê daquela ação (para se ver que até a informação, não deram a eles o direito de saber).

No lugar de suas antigas moradias, observaram avenidas sendo construídas e bondes passando. Antes protegidas por um teto de concreto, agora viviam em uma situação extremamente precária, entre os barrancos íngremes dos morros cariocas. Sem saber o que era a vacina, muito menos como funcionava a área da saúde que as autoridades buscavam implementar, esses grupos menos favorecidos permaneceram com medo e preocupados com as suas próprias vidas.

A soma de todos esses elementos e fatores produziu a conhecida “Revolta da Vacina”.

A revolta que derrubou o bonde pomposo que se exibia na iluminada avenida, símbolos do “Progresso” e do “Avanço” que as autoridades buscavam mostrar para as nações “mais desenvolvidas”.

Um povo silenciado e injustiçado de diversas formas, enfim, resolveu despertar e partir para a reação.

O bonde capotado manchava a foto, o “cartão postal” da elite brasileira. A “modernidade” que destruiu a vida de muitas famílias carentes, no dia 10 de novembro de 1904, foi derrotada por um povo enfurecido e reconhecedor de seus direitos.

Concluo a exposição com a brilhante e breve observação do historiador Nicolau Sevcenko sobre o que foi a Revolta da Vacina:

“Esse processo de reurbanização trouxe consigo fórmulas particularmente drásticas de discriminação, exclusão e controle social, voltadas contra os grupos destituídos da sociedade. E foi na intersecção sufocante dessa malha densa e perversa que a população humilde da cidade viu reduzirem-se a sua condição humana e sua capacidade de sobrevivência ao mais baixo nível. A equação dessas injunções, vistas pelo seu ângulo, traduzia-se em opressão, privação, aviltamento e indignidade ilimitadas. Sua reação, portanto, não foi contra a vacina, mas contra a história. Uma história em que o papel que lhes reservaram pareceu-lhes intolerável e que eles lutaram para mudar” (Nicolau Sevcenko. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 88).

Com base nesses elementos, entende-se o que é “empatia histórica”. Conhecer o passado é compreender o “Outro”, dentro de suas motivações e respectivas ações. É entender que, o que parece ser um “ato de vandalismo”, na realidade, é um protesto contra inúmeras práticas injustas e criminosas.

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É também compreender a relação entre a revolta de ontem e a de hoje, que se interseccionam em diversos pontos.

Os vidros de um banco quebrados e um bonde capotado no meio de uma avenida, ambos revelam a simbologia que existe por trás de cada objeto, baseada no privilégio de uma minoria frente ao completo abandono da maioria da população, para a qual só restam a fúria e a indignação que – ao serem somadas – se transforma em uma revolta legítima e justa.

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

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