PRÁTICA DO ENSINO II

OS SABERES DA EXPERIÊNCIA NO ENSINO (DE HISTÓRIA) – PARTE II DE III

A partir das informações debatidas na PARTE I deste post, quais seriam os fatores que produziram a situação de ensino vigente?

Segundo Tardif, a docência não pode ser limitada ao momento em que o professor inicia um curso de formação. De acordo com as palavras do autor: “A socialização é um processo de formação do indivíduo que se estende por toda a história de vida e comporta rupturas e continuidades.”[1] A partir do trecho anterior, percebe-se que os saberes provenientes das suas histórias de vida, os conhecimentos oriundos da observação sobre os educadores com os quais manteve contato durante a sua vida escolar, os saberes construídos a partir de suas relações com a sociedade em que está inserido, entre outros elementos, são importantes fatores que influenciaram e ainda influenciam as ações e as atividades do docente.[2]

Além disso, a cultura e o cotidiano escolar também fornecem uma série de experiências que intervém sobre as práticas de ensino do professor de História, ao longo de sua carreira. Em seu estudo, Dominique Julia descreve de que forma os habitus são inculcados no espaço escolar, influenciando no dia a dia de cada sujeito presente na escola – professores, alunos, coordenadores, entre outros.[3] Um exemplo de habitus é o tempo rápido que rege as atividades escolares, em geral, o qual faz com que as aulas, a absorção do conhecimento pelo corpo discente, o planejamento da exposição do conteúdo a ser ensinado, entre outros momentos sejam breves e velozes.

Com base nesse conceito, diversos elementos devem ser observados como o tempo de cada aula, o uso dos espaços escolares, a infraestrutura da unidade de ensino e o uso dos recursos disponíveis pelo educador.

Sobre o tempo de cada aula, foi visto que grande parte dos professores possuem somente 50 minutos para estabelecer a ordem da classe, expor o conteúdo e aplicar algum teste escrito para os alunos. Durante a docência, provavelmente, esses docentes tiveram que selecionar determinadas práticas de ensino, que se encaixassem melhor em um período mais curto de aula, dispensando outras formas de exposição e aplicação do conteúdo (que poderiam ser mais produtivas).

Observando o uso dos espaços da escola, foi possível perceber que somente a sala de aula era utilizada. Segundo alguns educadores, outros espaços como o pátio foram utilizados, porém, pela falta de cooperação do corpo discente, a experimentação foi malograda, o que posicionou a sala de aula como o “único” lugar capacitado à passagem de conhecimento.

Sobre a infraestrutura e a disponibilidade de recursos, nem todas as escolas públicas brasileiras contam com salas especializadas e bem equipadas com instrumentos tecnológicos avançados (sala de vídeo ou de informática, por exemplo). A precarização do ensino público incide diretamente sobre o cotidiano dos educadores, constituindo-se talvez no principal fator causador de gradativo desânimo e paulatina indiferença entre alguns docentes.

Com isso, é possível perceber como esses fatores influenciam – indireta e diretamente – o professor nos momentos em que ele não só desenvolve determinadas práticas de ensino, mas também as aplica em sala de aula. Em cada experimento e tentativa de aplicação da prática de ensino, os saberes experienciais obtidos ao longo de sua docência, atuam e interferem sobre os seus procedimentos, assim como os trabalhos a serem desenvolvidos no interior da sala de aula.

Para concluir a observação sobre o objeto em questão, vale ser destacado um trecho importante – escrito pelo estudioso Fernando Seffner – acerca da articulação entre os saberes de caráter prático (saberes experienciais) e o ensino de História.

De acordo com o autor: “Os saberes da docência são em geral saberes de caráter prático. Constituem aquilo que um professor aprende ao longo dos anos de exercício docente, saberes muito diversos, em geral pouco sistematizados e pouco refletidos, pouco discutidos, pouco valorizados, mas essenciais para a gerência e condução das aulas e para a “sobrevivência” do professor no ambiente escolar. São os modos de gerir uma classe de alunos, as estratégias de avaliação dos conhecimentos, os conhecimentos acerca da cultura juvenil e das gírias adolescentes, os jogos de perguntas e respostas, as ações para manter a atenção dos alunos, os estratagemas para gerenciar conflitos e violências na sala de aula, o conhecimento das ênfases e pontos de maior interesse nos conteúdos de história, as sutilezas das regras disciplinares e do regimento escolar e sua aplicação em benefício da boa condução das aulas, (…) os procedimentos de exposição dos conteúdos, o conhecimento de fontes para exercícios e testes em História, o domínio do discurso pedagógico, o conhecimento da legislação educacional, a percepção do valor que tem o conhecimento para alunos e pais e os meios de usar melhor essa informação para atingir os objetivos das aulas de História, e um conjunto diverso e amplo de modos, meios, estratégias e conhecimentos de natureza pedagógica, prática e vivencial”.[4]

Finaliza, em breve, na PARTE III.

▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪

Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

gabriel

Referências:

[1] Maurice Tardif. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis: Vozes, 2012, p. 71.

[2] Guenther Carlos Feitosa de Almeida. Os Saberes da Experiência como Princípio da Autoria Docente. Anais do VI Congresso Goiano de Ciências do Esporte, Goiânia 10 a 12 de Junho de 2009, p. 2.

[3] Dominique Julia. A cultura escolar como objeto histórico. Revista Brasileira de história da educação, v. 1, n. 1, 2012, p. 36.

[4] Fernando Seffner. Saberes da docência, saberes da disciplina e muitos imprevistos: Atravessamentos no território do ensino de História. In. BARROSO, V. et. al. (orgs.) Ensino de História: desafios contemporâneos. Porto Alegre: Ed. EST: Exclamação: Anpuh/RS, 2010, p. 2-3.

2 respostas para “PRÁTICA DO ENSINO II”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s