PRÁTICA DO ENSINO III

OS SABERES DA EXPERIÊNCIA NO ENSINO (DE HISTÓRIA) – PARTE III DE III

Continuando, após as PARTES I e II, e finalizando o estudo sobre os saberes experienciais.

Antes do término deste artigo, devem ser apresentadas algumas propostas de intervenção pedagógica frente aos casos apresentados anteriormente. Dentre elas, a mudança do tratamento do professor em relação aos imprevistos ocorrentes, a necessidade de conferir mais “voz” aos alunos, ouvindo e avaliando suas sugestões para o ensino de História.

Em seu estudo, Fernando Seffner aborda os imprevistos, situações inesperadas que podem surgir durante uma aula de História. O autor os define como “momentos” que não foram planejados, ou melhor, premeditados pelo professor, enquanto construía a sua exposição para os alunos. Ao mesmo tempo produtores de algumas dificuldades para o docente, os imprevistos – quando utilizados criativa e criticamente pelo educador – também podem fornecer novos caminhos para a aula, produzindo oportunidades interessantes e variadas de aprendizagem histórica dos alunos.

De acordo com Seffner: “Toda aula comporta imprevistos e dilemas, para decidir se vale a pena seguir na direção apontada pelo imprevisto, ou se vale a pena insistir no que foi planejado anteriormente. Há professores que se aferram a seu planejamento, e não aceitam qualquer variação, precisam “dar a matéria”, tem que “seguir o conteúdo”. Há aqueles que aproveitam toda pergunta e qualquer questionamento dos alunos para enveredar pela discussão de outros temas, não planejados para aquela aula. Difícil saber qual caminho tomar, pensando que as decisões têm que ser rápidas, na hora em que o imprevisto se apresenta, e que os contextos são muito diversos. São dilemas práticos, fazem com que a aula se mova por terrenos desconhecidos, desafiadores. Uma pergunta feita por um aluno, uma conexão que se estabeleça entre o que o professor está falando e as preocupações de uma aluna, algo que foi verbalizado, uma piada, uma brincadeira em cima da “matéria”, uma resposta completamente errada, e vem a dúvida: devemos tomar aquilo que está acontecendo e dar nova direção para a aula? Ou devemos desconhecer todos os imprevistos, afinal de contas “os alunos estão sempre dizendo bobagens sobre a matéria”?”[1]

Articulando as observações de Seffner com o que foi observado e exposto acima, foi possível ver que parte dos professores não aproveitavam os imprevistos como uma ferramenta de ensino de História, a qual poderia contribuir, positivamente, na aprendizagem dos alunos. A pergunta “fora de contexto” de um aluno, a brincadeira de uma aluna no fundão da sala, entre outros tipos de imprevistos foram tratados como barreiras ou obstáculos pelos docentes, sendo assim, rapidamente, evitados e desprezados por eles.

Voltando à Linha da Docência (anteriormente exposta e analisada no desenvolvimento do artigo), foi possível observar que um dos motivos da não persistência em um determinado “experimento” de aula era a não cooperação do corpo discente, a qual (tendo como base a visão de Fernando Seffner) também se constitui em um imprevisto ocorrente em sala de aula. Enquanto poucos educadores aproveitam estes “momentos” como instrumentos de ensino de História, a maioria vê os imprevistos como fatores definidores do sucesso ou fracasso de certos tipos de aula, utilizando-os como parâmetros que apontam se a aula foi “boa” e deve ser mantida, ou se foi “ruim” e deve ser descartada do conjunto de suas práticas de ensino. Dessa forma, as experiências que não obtiveram êxito são retiradas do plano de aula do docente, ficando os experimentos testados não só parados ao longo da docência, mas também não havendo retorno a alguns deles, nem revisão seguida de uma nova tentativa da prática malograda.

A partir dessas informações, uma dentre diversas propostas de intervenção pedagógica pode ser levantada: a necessidade de cuidado e maior atenção em relação aos imprevistos. Segundo Seffner, é necessário se esforçar na valorização dos imprevistos como caminhos de boas aprendizagens, para o professor e para o corpo discente, insistir para que os educadores tenham um ouvido mais sensível às brincadeiras que os estudantes fazem com a matéria ou às perguntas “fora de contexto” que expressam, entre outros elementos que podem favorecer o ensino e a aprendizagem de História.[2] Com este novo posicionamento, provavelmente, fará com que o professor retorne aos “experimentos” que não obtiveram êxito, tentando realizá-los novamente, mas com outra postura perante a sala de aula. Além disso, ao planejar uma nova prática de ensino, o educador – sabendo da existência dos imprevistos – terá maior habilidade no manejo dessas situações, utilizando-as como importantes ferramentas de construção do conhecimento histórico junto com os alunos.

Outro importante elemento que também deve receber atenção é a indispensabilidade de conceder “voz” aos alunos, ouvindo as suas propostas para o ensino de História. Ao longo da docência e a partir das inúmeras experiências vivenciadas, percebe-se que o professor foi se colocando no centro da sala de aula, conferindo aos estudantes papéis secundários na construção do conhecimento histórico.

Durante um estágio que realizei na Escola Estadual Coronel Siqueira de Moraes (Jundiaí/SP), tive a oportunidade de realizar um debate com os alunos do 8º ano sobre o ensino de História, no qual propus como objetivo conhecer quais eram as opiniões e as propostas dos educandos para esta disciplina. Dentre elas, algumas merecem destaque: a condução dialógica da aula foi muitas vezes citada, a qual, segundo os estudantes, é melhor e facilita o seu entendimento; os alunos não gostam que o professor só fique falando e eles ouvindo ou copiando, reivindicando maior participação discente; propuseram ideias para formas alternativas de ensino, por exemplo, o uso do cinema e da música, entre outros; os alunos se interessam bastante por debates; pedem para que sejam trabalhados mais assuntos do presente, próximos de sua realidade e das experiências que compartilham.

Uma dentre algumas maneiras de intervir nesse quadro seria o docente articular estas observações dos alunos com algum tipo específico de aula, que seja capaz de oferecer práticas de ensino mais próximas às idealizadas pelo corpo discente, favorecendo a sua aprendizagem. Em seu estudo, Aula Oficina: do Projeto à Avaliação, Isabel Barca concede destaque ao modelo de “aula –oficina”, o qual – se aplicado de forma eficiente – pode contribuir à aprendizagem histórica de cada educando. Neste tipo de aula, o aluno se torna o agente de sua formação, e não mais um sujeito passivo com papel secundário, em sala de aula. O docente releva as ideias e as experiências prévias dos estudantes, transformando-se em um investigador social e organizador de atividades que problematizem o conteúdo a ser ensinado. Opondo-se a uma perspectiva tradicional e unilateral de se construir o conhecimento histórico, o modelo de saber passa a ser multifacetado. Além disso, a “lousa” e o “giz”, embora não dispensados, tornam-se alguns dos diversos recursos disponíveis ao educador, assim como aos educandos, na elaboração conjunta do que será ensinado e aprendido.[3]

Apesar da proposta descrita por Barca ser positiva e relevante, uma ressalva deve ser apontada. Rafael Valls, autor do texto La enseñanza de la Historia: problemas reales y polemicas interessadas (aportaciones desde uma óptica española), ressalta a necessidade de se retirar, gradualmente, os resquícios tradicionais presentes na disciplina de História, para que determinadas inovações (como as levantadas por Barca), realmente, se concretizem.[4]

Com base nas informações recolhidas, apresentadas e analisadas no desenvolvimento da pesquisa, é possível responder a pergunta central e norteadora da pesquisa exposta na introdução deste trabalho.

Os saberes da experiência influenciaram e influenciam o ensino de História do educador? De acordo com as ideias de diversos autores citados, assim como os dados estudados e problematizados, a resposta é sim, os saberes experienciais influenciam não só o professor, mas também as práticas de ensino de História que ele planeja e executa. Diversos elementos corroboram esta afirmação como a Linha da Docência (mostrada no desenvolvimento do artigo), os motivos que indicam o sucesso e o fracasso de determinadas atividades, a cultura e o cotidiano escolar, o próprio código disciplinar, entre outros pontos que tornam evidente o modo como o professor experimenta diversas práticas e, a partir das experiências que vivencia em sala de aula, coleta uma série de saberes que o influenciam em seu cotidiano como educador.

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

gabriel
Referências:

[1] Fernando Seffner. Saberes da docência, saberes da disciplina e muitos imprevistos: Atravessamentos no território do ensino de História. In. BARROSO, V. et. al. (orgs.) Ensino de História: desafios contemporâneos. Porto Alegre: Ed. EST: Exclamação: Anpuh/RS, 2010, p. 4-5.

[2] Fernando Seffner. Saberes da docência, saberes da disciplina e muitos imprevistos: Atravessamentos no território do ensino de História. In. BARROSO, V. et. al. (orgs.) Ensino de História: desafios contemporâneos. Porto Alegre: Ed. EST: Exclamação: Anpuh/RS, 2010, p. 5.

[3] Isabel Barca. Aula oficina: do Projeto à Avaliação. In: Para uma educação de qualidade: Atas da Quarta Jornada de Educação Histórica. Braga, Centro de Investigação em Educação (CIED)/Instituto de Educação e Psicologia, Universidade do Minho, 2004, p. 131-144.

[4] R. Valls. La enseñanza de la Historia: problemas reales y polemicas interessadas (aportaciones desde uma óptica española). Educar em Revista. Paraná: Curitiba: Ed. UFPR, número especial 2006, p. 259-260.
Sugestões de aprofundamento:

ALMEIDA, Guenther Carlos Feitosa de. Os Saberes da Experiência como Princípio da Autoria Docente. Anais do VI Congresso Goiano de Ciências do Esporte, Goiânia 10 a 12 de Junho de 2009.

BARCA, Isabel. Aula oficina: do Projeto à Avaliação. In: Para uma educação de qualidade: Atas da Quarta Jornada de Educação Histórica. Braga, Centro de Investigação em Educação (CIED)/Instituto de Educação e Psicologia, Universidade do Minho, 2004.

COSTA, Aryana Lima; OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de. O ensino de História como objeto de pesquisa no Brasil: no aniversário de 50 anos de uma área de pesquisa, notícias do que virá. Sæculum: Revista de História, v. 16, 2007.

FERNÁNDEZ, Raimundo Cuestas. La historia social del curriculum y la Historia como disciplina escolar. In: Sociogénesis de una disciplina escolar: la Historia. Barcelona: Ediciones Pomares-Corredor, 1997.

JULIA, Dominique. A cultura escolar como objeto histórico. Revista Brasileira de história da educação, v. 1, n. 1, 2012.

RASSI, Marcos Antônio Caixeta; FONSECA, Selva Guimarães. Saberes Docentes e Práticas de Ensino de História na Escola Fundamental e Média. Sæculum: Revista de História, João Pessoa, 2006.

SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Saber escolar e conhecimento histórico. História & Ensino, Londrina, 2005.

SEFFNER, Fernando. Saberes da docência, saberes da disciplina e muitos imprevistos:
Atravessamentos no território do ensino de História. In. BARROSO, V. et. al. (orgs.) Ensino de História: desafios contemporâneos. Porto Alegre: Ed. EST: Exclamação: Anpuh/RS, 2010.

TARDIF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis: Vozes, 2012.

VALLS, R. La enseñanza de la Historia: problemas reales y polemicas interessadas (aportaciones desde uma óptica española). Educar em Revista. Paraná: Curitiba: Ed. UFPR, número especial 2006.

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