FRACASSO ESCOLAR III

Parte III de V

Descrição e análise da escola

  1. a) Apresentação da E.E. Coronel Siqueira de Moraes

 Localizada no município de Jundiaí/SP, no bairro Vianelo, a Escola Estadual Coronel Siqueira de Moraes conta com um número total de 618 alunos. Trata-se de uma escola tradicional e conhecida na cidade (possui 121 anos de idade), mas que perdeu muito de seu prestígio, ao longo dos últimos anos, por causa da contínua precarização que vem sofrendo.

O bairro em que ela está inserida é predominantemente residencial, com saneamento básico em condições adequadas e localização privilegiada pelos meios de transportes, postos de saúde, hospitais, amplo comércio, entre outros. Atualmente, a maioria dos alunos pertence ao bairro, devido ao elevado número de apartamentos e casas ao redor. Outro ponto a ser destacado é que pela localização da escola, há maior preferência entre os alunos do Ensino Médio, porque trabalham ou fazem cursos técnicos nas proximidades da unidade de ensino

Ao longo do estágio, foi possível notar uma série de elementos positivos. Um deles é o incentivo aos projetos culturais como as artes cênicas (aulas e grupos de teatro), a pintura e a música, os quais unem alunos, professores e coordenadores da escola. Outra característica positiva é a presença de instalações desenvolvidas, que auxiliam tanto os professores, quanto os alunos – por exemplo, um auditório (com suporte especializado de som e luzes), um ginásio de esportes, um laboratório, uma biblioteca, uma sala de vídeo, entre outras. Além disso, a escola conta com o suporte e condições apropriadas para a inclusão de estudantes com deficiência física. No espaço de socialização dos estudantes, mensagens foram espalhadas pelo pátio como “nunca deixe de sonhar” e “aqui você é especial” (frases motivacionais para os educandos). Nos murais, convites são feitos para atividades extracurriculares – por exemplo, olimpíada brasileira de matemática das escolas públicas, fórum sobre a sexualidade na adolescência, teatro “O Cortiço” (obra selecionada para o vestibular), entre outros.

Por outro lado, alguns aspectos negativos também foram vistos. Um deles é a infraestrutura precária, por exemplo, torneiras quebradas nos banheiros, chão sujo, paredes com rachaduras, ausência de um ambulatório, carteiras gastas que necessitam de troca por outras mais novas, entre outros. Sabendo que há um baixo investimento do estado de São Paulo na educação pública, consequentemente, a precarização tende a recrudescer nas escolas estaduais. Segundo o diretor, a liberação de verba para a Escola Estadual Coronel Siqueira de Moraes é insuficiente para uma possível melhoria de qualidade da unidade de ensino. Além disso, ela conta poucos funcionários terceirizados, os quais estão sobrecarregados com muitas tarefas (pequeno contingente de trabalhadores em relação a um número elevado de estudantes). Com uma baixa – ou quase nula – entrada de funcionários por ano, às vezes, os professores têm que assumir outras funções que não competem à deles (bibliotecário, psicólogo, assistente social, entre outras).

Outro elemento que há de ser destacado é o alto número de grades que separam e dividem os corredores da escola. Locais como o ginásio, o pátio, a biblioteca e os laboratórios permanecem fechados com grades, correntes e cadeados, impedindo o acesso do aluno a estes espaços. A partir desses elementos, foi percebido que a escola está inserida dentro de uma lógica autoritária que cerca e determina os espaços que podem ser frequentados pelos estudantes, não havendo uma maior abertura para o livre acesso e circulação do corpo discente.

 

  1. b) Aprofundamento das observações realizadas

             O aprofundamento das observações está dividido em seis partes: a internalização do fracasso escolar, a perda da motivação dos professores, a rejeição aos alunos-problema, a falta de apoio à recuperação dos alunos, a nula concessão de “voz” aos estudantes e, por último, a influência da sociedade sobre a escola.

O “pontapé inicial” da análise das observações foi um debate realizado em uma sala do oitavo ano do Ensino Fundamental. O tema era fracasso escolar e muitas questões importantes foram levantadas ao longo da discussão com os alunos.

Antes de se iniciar o debate, foi escrito na lousa alguns termos como “vagabundo”, “burro”, “repetente” e “atrasado”. De início, os estudantes começaram a rir, identificando e relacionando eles próprios e seus colegas com estas palavras. Ao anotar duas perguntas na lousa, o comportamento de alguns alunos mudou radicalmente, passando da euforia e gozação para um elevado desconforto e irritação. A primeira pergunta foi: “como você se sente, ao ser chamado por esses nomes?” A segunda interrogativa foi: “e se eu dissesse que todos os que estão fora das escolas públicas veem vocês dessa forma?”

A partir da reação do corpo discente, foi possível distinguir dois grupos de alunos. O primeiro, rapidamente, posicionou-se contra o discurso negativo construído sobre eles, exclamando que iriam provar para todos que eles são bons alunos e não aquilo que falam sobre eles. Por outro lado, o segundo conjunto de estudantes não se mostrou indignado, passando a aceitar o discurso preconceituoso construído sobre eles. Entre os educandos deste grupo, notou-se uma clara internalização do “fracasso escolar”.

Ao ouvir as falas desses alunos, foi notado um dos grandes problemas levantados por Dante Moreira Leite em seu texto: a produção de um aluno desanimado em relação à sua escolarização. Infelizmente, estes educandos estão aceitando, passivamente, as visões “negativas” acerca de si mesmos, prejudicando-os ainda mais em sua aprendizagem, já que, de acordo com as palavras do autor, “se ocorre a acentuação das qualidades indesejáveis, é frequentemente impossível fugir a elas. (…) uma vez classificado como delinquente, o indivíduo não encontra, em si ou nos outros, elementos para buscar uma outra identificação”.[1]

Após a observação desse problema, foi feita uma entrevista com a vice-diretora, a fim de se conhecer quais são as maiores dificuldades da escola e suas causas. Segundo a vice-diretora, uma das maiores dificuldades é fazer com que os alunos gostem de estar em sala de aula, diminuindo o alto número de abandono escolar, além do fraco desempenho dos estudantes. Estabelecida como causa dessas dificuldades, ela frisou o baixo investimento do governo estadual sobre a educação pública, o qual resulta em uma séria consequência para as escolas estaduais: a sua precarização, aumentando o desprestígio e a falta de vontade dos alunos em frequentar a unidade de ensino.

Embora os apontamentos feitos pela vice-diretora, relativamente, tenham razão, devendo ser respeitados, ficar somente com eles como explicações ao fracasso escolar, faz com que esta pesquisa não saia do senso comum e da superficialidade sobre o problema. Na verdade, o objeto deste trabalho é multidimensional, apresentando uma elevada complexidade e amplidão de fatores que o produzem.

            Um desses fatores observados é a gradativa perda de motivação, assim como o aumento da desconfiança do professor em relação aos seus alunos. Cíntia Freller, ao longo de seu trabalho, percebe que, diante de uma série de experiências malogradas e frustrantes, o professor passa a ficar – cada vez mais – desanimado, gerando um quadro de descaso em relação ao corpo discente. O baixo salário, as péssimas condições de trabalho, a desvalorização de sua profissão, entre outros fatores alimentam e recrudescem sentimentos como o desânimo, a impotência e a apatia entre a classe docente. Durante a pesquisa, foi notado o quanto a visão de Freller é verdadeira: “ao se defrontarem com os limites de seu projeto normativo, e de ensino, os professores deslizam para práticas opostas: descompromisso, pouco envolvimento, apatia e descaso”.[2]

Uma das manifestações desse problema é o interessante projeto de ensino de História do professor D. (8º Ano), que poderia ser aplicado, porém, por causa da baixa confiança do docente em relação aos alunos, o projeto ainda continua no papel, não havendo vontade e motivação para praticá-lo em sala de aula.

Outro elemento observado no estágio – uma das repercussões do descaso do docente em relação aos alunos – foi a homogeneização do corpo discente efetuada pelo professor, em sala de aula. Pouco se preocupando para atender todos os tipos de alunos, as particularidades de cada estudante permanecem de lado. O que se viu, durante o estágio, foi uma uniformização das práticas e normas escolares, que não só homogeneizava um corpo discente heterogêneo, mas também prejudicava o desenvolvimento das potencialidades de cada educando.

Na Parte IV continuaremos com esta análise.

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

gabriel

Referências:

[1] Dante Moreira Leite. Educação e Relações Interpessoais. In (org.) M. H. Patto: Introdução à Psicologia Escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997, 3ª. ed., p. 315.

[2] Cíntia C. Freller. O trabalho com os professores. Histórias de indisciplina escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, p. 139-40; 166.

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