LITERATURA E EDUCAÇÃO

Era uma vez, uma casa qualquer, uma sala qualquer, um tapete qualquer, uma cartilha qualquer, uma revista qualquer, uns livros e papéis dispersos… tudo recheado de sinais, símbolos, números, imagens, signos, gente… tudo incompreensível… e uma criança, com os seus olhos cheios de vontade de saber o sentido de tudo… porque tudo neste mundo… tudo há de fazer sentido.

Mas, uma após outra, a bondade ou maldade, a beleza ou feiura de todos aqueles signos em rotação, como mundos girando em torno do Sol, dizia àquela criança: decifra-me ou devoro-te… E desta maneira, por conta do medo esfíngico dos contos de longes de areia e pirâmides, por conta do medo de ser devorada por uma vida sem sentido, que a vontade de criança se converteu, pouco a pouco, em um saber de tudo, em sentidos, em linguagens, em discursos – gesto, verbo, matemática, imagem, música, escultura, arquitetura, moda, trânsito… linguagens…

A criança que nos habita – que acorda em nossa memória e sonha em nossa imaginação – fez-nos, pois, leitores dos sentidos do mundo. Ganhamos de presente esse enigma da vida, mundo bordado pela humanidade osso a osso, caverna a caverna, fogo a fogo, linha a linha, signo a signo… mundo de linguagens, de discursos, de sentidos, de ideologias… mundo para se viver junto, mundo em que compartilhamos nosso sentido – nossas epifanias de ser, capazes de desvendar a nós mesmos e ao outro, a origem, a essência, a existência, o destino de tudo… Da criança que fomos, ganhamos um mundo de linguagens e de discursos… e, desse modo, de um deserto de existência, do saco da história de todos os discursos, no tempo certo, encontramos o sentido de nossa beleza:  as Artes…

Elas foram se acendendo devagar em meio a coisas comuns… tomando forma e iluminando os nossos olhos, tomando conta de nossa vontade, como um discurso de salvação, discurso de plenitude, como um cordão umbilical ou útero para nossa completude: o nosso paraíso terrestre. Urgentes, contemplando e construindo todo o Belo, seguimos em nosso encontro com o verbo original, com os números divinos, com as imagens, com os sons, com os aromas, com os sabores, com as arestas, com os gestos, com as emoções, com as razões, com o vinho dos deuses… esta satisfação de existirmos plenos, belos.

Como as outras Artes, a Literatura – nossa Arte do verbo –, aterrizou a sua história em nossa história, como discurso que pode nos salvar da vida vazia, nua, oca… e nos tem feito cada vez mais sábios, mais significativos, mais felizes. E, neste sentido, sem medo de me perder, digo que a Literatura é instrumento de nossa real salvação… não uma salvação para a eternidade que nos foi dada por Platão e pelas Religiões, não… a Literatura não é uma salvação para tanto… a Literatura nos salva para a vida finita que nos deu Aristóteles…. para este mundo sensível, de pessoas, de cultura, de ideologias, de política, humano, governado, em nossa verdade última, por Cronos e pelas Parcas… é para este mundo e neste mundo do tempo e da finitude, que a Literatura nos salva.
Salva, porque a sua Beleza nos espelha… porque é capaz de transformar a vida finita com sua infinitude de formas e sentidos que nasce da nossa belezura gostosa e safada… prazer estético que abre nosso riso para o Inverno, berço de gestação de ipês e azaleias… que abre nossos olhos para a economia, para a política, para a sociedade, para a cultura, para as ideologias, para a justiça social, para o amor… que abre nossos olhos para a história de todos os ismos… para a tolerância… para os nossos números e para os números do outro… para o nosso corpo e para o corpo social… para a igualdade e para os pilares de desigualdade… para o nosso lugar e para o lugar de todos os outros… para os átomos e suas junções de amor e separações de ódio… para o movimento do universo… água… terra… ar … fogo… éter… para o celeste, portanto, e para o que é telúrico… para a alma dos que creem… para os impulsos elétricos e para as reações químicas dos que não creem… tudo em seu sentido e em sua beleza… na dança do universo.

A Literatura nos permite saber… ela nos educa… como os olhos limpos daquela criança que nos habita, nos permite dar sentido a tudo; nos ensina “lançar mundos no mundo”… ideais mais belos que o de Platão… realidades mais belas que a de Aristóteles… nos permite compreender, “como dois e dois são quatro… que a vida vale a pena, embora o pão seja caro e a felicidade pequena”…

É a Literatura que nos educa para aceitarmos a resposta inusitada do espelho mágico: “– Espelho, espelho meu… existe alguém mais belo do que eu?” É da Literatura como espelho, labirinto de nossa solidão, que vem a resposta. E saltamos com a memória e com a imaginação, para a vida fora de nosso castelo de cartas marcadas, para fora da caverna de Platão, para descobrirmos o outro… para descobrirmos que somente no outro podemos nos educar e encontrar a nossa própria belezura e o sentido da vida social… já que é no discurso do outro que ganhamos de presente o nosso próprio sentido. Fazer sentido… é isso que nos educa… que nos pode contentar… acalentar nosso sono e nossa vigília todos os dias, aplacando nossa sede de existência, de alegria e de prazer.

Se, porém, em um país distante… muito distante… para lá da terra do nunca… bem além das palmeiras onde canta o sabiá… bem além dos sertões… bem além de Itabira… bem além de São Paulo, esta comoção da minha vida… bem aquém, porém, de toda nossa imaginação e desejo, a Literatura está sendo pisoteada com botas de sete léguas e cascos de mamutes… se neste lugar e tempo de além e aquém, os Educadores são vistos com desconfiança e desdém… apesar de ensinarem as flores vencendo o canhão… se neste país além, a falta de escrúpulos dos mercadores da vida tem convencido a muitos de que, mais que tudo, o que vale é o ouro do tolo…e um tolo eu absoluto que renega o outro… nessa terra do sem fim, ainda assim, fica patente a esperança daquela criança que nos habita, aquela que será sempre capaz de saber e dar sentidos a tudo e de construir e reconstruir um universo de boniteza e dignidade para todos, mundo que faça sentido com Arte… que seja pleno, porque educado pelos ecos de belezura da Literatura.

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Autor: 📖Charles Borges Casemiro, doutorando em Literatura Portuguesa pela USP, mestre em Literatura pelo Mackenzie e docente de Literatura Portuguesa no curso de Licenciatura em Letras no IFSP.

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