FRACASSO ESCOLAR IV

Parte IV de V

Wundt, um estudioso oitocentista, desenvolveu um estudo sobre as diferentes reações dos indivíduos em relação a variados ambientes. Partindo de um espaço determinado, o experimento mostrava como as pessoas reagiam de formas diferentes de acordo com a sua adaptabilidade, evidenciando capacidades distintas de se relacionar com o local em que estavam inseridas – os mais e os menos adaptados. Utilizando a escola como o campo de análise, alguns pesquisadores se apropriaram das ideias de Wundt, procurando delimitar e definir quais eram as “capacidades” de cada aluno. O emprego desta visão equivocada, por parte dos membros da equipe escolar, gerou – e ainda gera – inúmeras formas de preconceito no interior das unidades de ensino brasileiras (por exemplo, os alunos “normais e mais dotados” e os “anormais” cuja aprendizagem é baixa).

Isto ficou evidente durante o estágio, a partir do momento em que foi observado que alguns professores dividiam as suas turmas em dois extremos: os inteligentes e os atrasados. Segundo Dante Moreira Leite, “(…) a grande maioria é ignorada, e são percebidos apenas os extremos; de um lado, aqueles que apresentam as qualidades mais admiradas pelo professor, de outro, os que apresentam as qualidades mais rejeitadas”.[1]

Observando algumas aulas, foi possível notar que cada professor tem seus alunos “preferidos”, os que dão orgulho e animação ao docente por tê-los em sua turma. Por outro lado, também existem os estudantes rejeitados, normalmente, aqueles que possuem um fraco desempenho, dificuldades para aprender, pouca atenção às aulas expositivas, entre outras características expostas pelos educadores.

Esta divisão, algumas vezes, foi expressa em sala de aula através da atitude alguns docentes. Expresões que deveriam ter sido ditas para o estudante em um local mais particular foram faladas na frente de toda a turma, causando desconforto e mal-estar ao aluno. Palavras como “burro(a)”, “terrível”, “preguiçoso(a)”, entre outras foram proferidas por alguns educadores. O maior problema disso não está somente em expressar estes termos. A consequência mais negativa é que alguns desses alunos internalizem estas palavras pesadas, acreditando que não passam de estudantes “burros e incapazes”.

Durante o conselho de classe, expressões carregadas de preconceito também foram faladas pelos professores e coordenadores. Diante do caso de um aluno que ficou de recuperação em todas as disciplinas, frases foram ditas como: “este aluno deve ser encaminhado para algum psicólogo, ele é doente!” Em outros casos também de fraco desempenho de alguns estudantes, foi ouvido que eles eram “drogados”, “fracassados”, “idiotas”, entre outros termos pesados que evidenciam o elevado preconceito entre os membros da equipe escolar.

Além disso, preconceituosamente, há uma persistência da equipe escolar em relacionar os problemas de aprendizagem de alguns alunos com patologias, sendo que eles não possuem qualquer problema de saúde. Tal atitude é evidenciada no estudo Preconceitos no cotidiano escolar: ensino e medicalização de Cecília A. L. Collares e M. Aparecida A. Moysés, em que o aluno observado durante a pesquisa – Reginaldo – é “anormalizado” pela escola, sendo enviado para um atendimento médico mais especializado. Todavia, após os exames, o diagnóstico final foi de que o Reginaldo era normal, “ressaltando a ausência de qualquer patologia que pudesse explicar seu mau rendimento escolar”.[2]

Diante desses elementos, foi possível ver o quanto as diversas formas de preconceito presentes na escola, prejudicam a aprendizagem de cada estudante, especialmente, os que possuem maiores dificuldades. Além disso, elas retiram do interior de cada professor qualquer esperança de poder ajudar algum estudante a recuperar aquilo que não foi absorvido e compreendido, ao longo de sua escolarização. Uma das manifestações da perda de confiança dos docentes em relação aos alunos com desempenho insatisfatório, foi a falta de apoio às recuperações dos alunos. Perguntando para alguns professores sobre o grau de eficiência das recuperações, foi possível perceber – através da resposta de cada um – que eles não acreditam no seu sucesso, nem na sua efetividade. De acordo com a professora S. de Biologia: “Os alunos não fazem nada, mesmo com tantas atividades fáceis e simples para atingir 5 pontos. Enquanto os alunos não se importarem com a educação, a recuperação permanecerá inútil”.

Sobre as medidas a serem tomadas para auxiliar o aluno com dificuldades, a vice-diretora disse que a escola vem elaborando planos e metas para superar este problema. Projetos como as “atividades de recuperação contínua” revelam a busca pelo aumento da qualidade de ensino para os alunos com desempenho insatisfatório, a qual depende da preparação dos docentes ao atendimento dos estudantes com maiores dificuldades, visando aumentar e estabilizar a permanência desses educandos na unidade de ensino.

Diante disso, algumas perguntas podem ser geradas. Ora, visto o preconceito altamente presente entre os professores, os “planos e metas” expressados pela vice-diretora podem ter sucesso? Os alunos com dificuldades serão, realmente, ajudados por alguns educadores que pouco acreditam em sua recuperação? Assim como Alceu Ferraro observou em seu texto, a exclusão e o preconceito na escola são grandes barreiras ao sucesso escolar, permanecendo ineficaz qualquer medida que vise a melhoria do ensino e da aprendizagem.[3]

Outro ponto a ser destacado é a nula concessão de “voz” aos alunos, conferida pela equipe escolar. Ao deixar os alunos falarem, seja no debate promovido com a turma do oitavo ano, seja em algumas rodas de conversa durante o intervalo, foi possível ouvir interessantes questionamentos sobre o funcionamento e a qualidade da escola.

Em relação às aulas, algumas propostas de modificação foram feitas por cada um dos estudantes. Dentre elas, a condução dialógica do ensino (os estudantes disseram que a aula feita através de diálogos é melhor e facilita o entendimento), a maior participação discente na sala (os educandos criticaram o fato de só o docente poder falar, enquanto eles devem ficar quietos, só ouvindo), aulas mais dinâmicas e criativas (o ensino feito através do uso do cinema e da música foi sugerido), entre outras ideias interessantes. Todavia, pela falta de espaço concedido aos alunos, estas propostas permanecem só no ideário discente, não existindo qualquer tentativa – por parte dos professores e da coordenação escolar – de trazê-las à prática.

Cíntia Freller, no capítulo O trabalho com os alunos, aponta que, mesmo com ideias positivas que visam melhorar e pacificar o ambiente escolar, os professores, de modo geral, possuem uma imagem negativa em relação ao corpo discente. Não vêem que seus alunos têm interesse pela escola e querem contribuir com ela, auxiliando em suas necessidades. Segundo a autora, “grande parte dos professores, diretores, familiares (…) repetem o discurso de que os jovens são irresponsáveis, preguiçosos, desinteressados, querem moleza e folga. (…) Não conseguem admitir, nem de longe vislumbrar, que se trata de uma contribuição que merece ser bem recebida, a fim de possibilitar novas chances àqueles alunos, procurando introduzir um círculo positivo ao invés de reforçar o círculo vicioso negativo”.[4]

Sobre a equipe escolar, os alunos também trouxeram críticas significativas. Dentre elas, a rigidez de alguns docentes (além de ineficiente, é prejudicial à aprendizagem), o descaso de alguns educadores em relação ao corpo discente, a pouca habilidade de alguns professores em organizar a sala de aula, entre outras.

Evitando estabelecer julgamentos sobre se estão corretos ou não os questionamentos feitos pelos estudantes, o que é necessário frisar aqui é que eles se importam com a sua escola. De forma alguma, eles estão despreocupados e sossegados diante da precária estrutura de ensino que estão inseridos. Ao contrário do que alguns membros da equipe escolar relataram, os alunos não só querem “voz”, mas também querem participar e serem ativos (e não passivos) no processo de escolarização.

A partir desses elementos, há de ser destacada uma importante passagem – escrita por Cíntia Freller – sobre o desejo de participação e inclusão dos alunos no processo de escolarização. Segundo a autora, para os estudantes, aprender é necessário para que eles tenham a sua vida melhorada, sendo a escola o lugar mais apropriado para eles alcançarem seus objetivos, mesmo a escola sendo um espaço desigual, excludente, conflituoso, além de existirem professores desvalorizados e desanimados que também não reconhecem o seu desejo de estar na unidade de ensino. Segundo a autora: “É surpreendente que, apesar das práticas excludentes, preconceituosas e humilhantes às quais muitas vezes são submetidos na escola, não desistem, continuam valorizando, frequentando e tentando conquistar um espaço nesta instituição”.[5] Com isso, é possível perceber que os alunos não só buscam alcançar uma vida melhor, mas também “criar” um mundo em que possam participar. A escola se torna um espaço de identificação para os alunos, um lugar que os concede identidade.

A partir das observações anteriores, percebe-se o quão amplo e complexo é o problema fracasso escolar. Trata-se de um objeto de estudo que não está restrito somente às “paredes” e “corredores” da escola, mas também está integrado, intimamente, à sociedade. Tendo isso em mente, chega-se ao elemento final das observações realizadas durante o estágio, que é a influência de uma sociedade desigual e excludente sobre a escola.

A escola, como parte integrante desta sociedade, reproduz a exclusão e inúmeras formas de desigualdade, que são compartilhadas, cotidianamente, pelos alunos, professores, coordenadores e diretores. A presença desses elementos negativos, portanto, inutiliza qualquer iniciativa e estratégia para combater o fracasso escolar, já que os sujeitos escolares, por terem absorvido diversos tipos de preconceito, representam barreiras às políticas de incentivo e acentuação da qualidade do ensino.

Questionando a aplicabilidade das políticas públicas, a vice-diretora pontuou que elas se mostraram, até então, ineficientes à solução dos problemas que ela e seus colegas de trabalho enfrentam na escola. Novamente, citando Alceu Ferraro, em sua pesquisa, o autor mostra como a exclusão na escola, assim como os diversos tipos de desigualdade e preconceito existentes, não somente inutilizam as políticas públicas, mas também impedem que os alunos tenham seu direito garantido à educação, fazendo com que permaneça ou, em alguns casos, se agrave o problema do “fracasso escolar”.[6]

Na Parte V apresentaremos as conclusões finais desta investigação.

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

gabriel

Referências:

[1] Dante Moreira Leite. Educação e Relações Interpessoais. In (org.) M. H. Patto: Introdução à Psicologia Escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997, 3ª. ed., p. 312.

[2] Cecília A. L. Collares e M. Aparecida A. Moysés. Preconceitos no cotidiano escolar: ensino e medicalização. São Paulo: Cortez, 1996, p. 16.

[3] Alceu R. Ferraro. Escolarização no Brasil na ótica da Exclusão. In: Fracasso Escolar uma perspectiva multicultural. Porto Alegre: Artmed, 2004, p. 58.

[4] Cíntia C. Freller. O trabalho com os alunos. Histórias de indisciplina escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, P. 95-97.

[5] Idem, P. 81.

[6] Alceu R. Ferraro. Escolarização no Brasil na ótica da Exclusão. In: Fracasso Escolar uma perspectiva multicultural. Porto Alegre: Artmed, 2004, p. 58.

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