IDEOLOGIA, POLÍTICA E EDUCAÇÃO II

Neste debate, utilizaremos definições apresentadas no post anterior, de título IDEOLOGIA, POLÍTICA E EDUCAÇÃO I. Se ainda não viu, corra lá antes de começar por aqui!

As escolas são ambientes de aprendizagem completa: não se deve aprender apenas os conteúdos pertencentes ao currículo escolar, mas também é neste local que as crianças e adolescentes têm contato com outros ideários (conjunto de ideias) diferentes do familiar. Assim, a formação do indivíduo social é possível a partir dessa socialização, podendo então começar a construir sua própria personalidade dentro da interação entre alunos e também com seus professores.

Naturalmente, como consequência, os indivíduos inseridos em meios de relação interpessoal se transformam em seres que influenciam e são influenciados pelos demais. Isso é fazer política!

Conheça alguns temas que, direta ou indiretamente, devem ser trabalhados em sala de aula (contrariando propostas do projeto de lei Escola sem Partido, arquivado no Congresso), pois agregam valor à construção de uma sociedade mais justa e consciente.

  • gravidez na adolescência
  • apenas 5% do total dos prêmios Nobel foram laureados a mulheres
  • identidade de gênero
  • socialismo versus capitalismo
  • as Cruzadas e a disputa entre cristianismo e islamismo
  • governo militar de 1964 no Brasil
  • darwinismo versus criacionismo
  • preconceito
  • doenças sexualmente transmissíveis
  • rompimento de paradigmas da Igreja católica no Renascimento
  • análise política de governos anteriores
  • movimento Diretas Já
  • Martin Luther King e os direitos civis dos negros nos EUA
  • relacionamento do judeu Albert Einstein com o governo alemão

Esses temas não são importantes? Todos fazem parte apenas do passado? Há alguma influência deles em nossa sociedade atualmente? Que risco corremos em não abrir essas discussões?

Seguindo a definição de Marilena Chauí, estes temas não enfatizam uma ideologia de dominação e exclusão; ao contrário, fortalecem a igualdade e as argumentações por diferentes pontos de vista.

O Escola sem Partido propunha um possível cenário escolar no qual os educadores, que fazem parte da alma das escolas, trabalhariam com insegurança, prejudicando o aprendizado do corpo discente. Como diz Paulo Freire, para criar possibilidades de aprendizado, o ambiente escolar deve ser favorável e deve promover convivência social positiva. A escola não pode ser tomada por vigilância e medo.

Neste contexto, quem sai mais prejudicado? Obviamente o aluno. Ele deixa de aprender, de conhecer, de respeitar. Se o aluno sai prejudicado, a educação de um país fica comprometida por gerações. Excluir aprendizados sobre história, por exemplo, pode ser extremamente prejudicial. Afinal, já dizia Heródoto: “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”. Se deixarmos de lado questões como as Cruzadas, o período renascentista, saberes sobre Martin Luther King, a ditadura no Brasil, como poderemos criar cidadãos que, através do conhecimento histórico, lutem para evitar a repetição de erros do passado rumo a um futuro melhor?

Ademais do conhecimento histórico, entrar em contato com temas tidos como tabus, contribui para sair do senso comum, formular uma opinião própria, respeitar opiniões diferentes da sua, saber embasar seus argumentos em debates: aí está a emancipação individual e social. Os professores não podem ser proibidos de debater sobre política. Os alunos não podem deixar de buscar autonomia e conhecimento.

Como grave consequência de um ambiente neutro de ideias, os jovens irão tardar a criar um senso de criticidade frente a dizeres alheios, interrompendo o processo para deixarem de ser pessoas facilmente influenciáveis. Ouvir alguém falar sobre política ou opção sexual não “converterá” ninguém. Mesmo porque somos todos iguais, não existe lado de cá ou de lá.

É preciso ter contato com outros ideários, para ampliar o espectro de informações. É preciso contribuir para o processo de autonomia/liberdade para estar seguro das suas opiniões e para saber lidar educadamente e socialmente com a opinião do outro. Características pessoais que, infelizmente, estão cada vez mais em falta em nossa sociedade.

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Autores: 👩‍🔬Isabella Marchi Coelho e 🤓Rafael Pellizzer, estudante apaixonada por ciências e coordenador pedagógico, respectivamente.


Referências:

IDEOLOGIA, POLÍTICA E EDUCAÇÃO

Café Filosófico CPFL – Bruno Falciano

IDEOLOGIA, POLÍTICA E EDUCAÇÃO I

Qual é a sua definição de IDEOLOGIA, POLÍTICA e de EDUCAÇÂO? Veremos a seguir que são tantas as maneiras de explicar esses conceitos que, sem interpretação e sem argumentação, a base do CONHECIMENTO (pessoal e social) fica comprometida.

Que não exista o certo ou o errado, mas que exista o respeito e a liberdade para construirmos juntos uma sociedade melhor.

Leia as definições e pensamentos abaixo, segundo alguns estudiosos, para entrar no debate que começaremos no próximo post!

Ideologia (e ideário):

  • WEBER, Max: ideologia é um conjunto de ideias/ações de um indivíduo, orientado pelas ideias/ações dos outros através de um processo de comunicação;
  • TRACY, Destutt de: é a ciência que atribui a origem das ideias humanas às percepções sensoriais do mundo externo;
  • ALTHUSSER, Louis: ideologia não reflete o mundo real mas representa a relação imaginária entre os indivíduos para o mundo real; relação esta que depende da linguagem e das relações construídas;
  • CHAUÍ, Marilena: ideologia é um ideário (conjunto de ideias) histórico, social e político que oculta a realidade como forma de manter a dominação política, a exploração econômica e a desigualdade social.

Política (e poder):

  • ARENDT, Hannah: política é sinônimo de liberdade, é aparecermos de forma singular uns para os outros em ações e palavras dentro do âmbito público, na garantia da pluralidade humana que consiste na convivência dos diferentes;
  • HOBBES, Thomas: política é quando conhecemos o mundo exterior a partir das impressões sensoriais que temos dele, dentro de uma natureza humana voltada ao interesse próprio;
  • ARISTÓTELES: política é a ciência que tem por objetivo a felicidade humana e divide-se em ética – preocupação com a felicidade individual do homem, e em política propriamente dita – preocupação com a felicidade coletiva;
  • BOBBIO, Norberto: poder político diz respeito ao poder que um homem pode exercer sobre outros, a exemplo da relação entre governante e governados, sempre legitimado por algum motivo, como: tradição (poder de pai, paternalista), despótico (autoritário, exercido por um rei, uma ditadura) ou aquele que é dado pelo consenso (sendo este último um modelo de governo esperado).

Educação (e ensino):

  • KANT, Immanuel: educar, além de ser uma arte, é um processo que direciona o homem para a liberdade;
  • SAVIANI, Demerval: educação é a produção do saber, partindo do saber espontâneo até o saber sistematizado, da cultura popular à cultura erudita;
  • DEWEY, John: a educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida;
  • FREIRE, Paulo: ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para sua produção e construção.

Está preparado? Quer contribuir? Vamos falar de educação?

Continuaremos no próximo post!

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Autores: 👩‍🔬Isabella Marchi Coelho e 🤓Rafael Pellizzer, estudante apaixonada por ciências e coordenador pedagógico, respectivamente.

rafael

Referências:

RIBEIRO, Sergio A; ZANCANARO, Lourenço. Educação para a liberdade – uma perspectiva kantiana. Disponível em: https://saocamilo-sp.br/assets/artigo/bioethikos/82/Art11.pdf, acesso em 04/12

SANTOS, Adriana dos. Que é educação segundo Demerval Saviani. Disponível em: https://www.webartigos.com/artigos/que-e-educacao-segundo-demerval-saviani/39836/, acesso em 04/12

CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/388158/mod_resource/content/1/Texto%2014%20-%20O%20que%20%C3%A9%20ideologia%20-%20M.%20Chau%C3%AD.pdf, acesso em 04/12

VICENTE, João; COELHO, Cátia P. O legado de Hannah Arendt para a política brasileira. Disponível em: https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/o-legado-de-hannah-arendt-para-a-politica-brasileira/, acesso em 04/12.

RIBEIRO, Paulo Silvino. Ideia política de Norberto Bobbio. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/ideia-politica-norberto-bobbio.htm, acesso em 04/12.

QUEIROZ, Victor. Althusser: sobre a ideologia. Disponível em: https://colunastortas.com.br/althusser-sobre-a-ideologia/, acesso em 04/12

ESCOLA x PENITENCIÁRIA

O abandono final da juventude brasileira

Não vamos, como sociedade, negar a existência da criminalidade infanto-juvenil. Não sejamos fanáticos, no entanto. Buscar vingança para episódios pessoais não é justiça e nem diminui a insegurança pública. Precisamos resolver o problema, e não seus sintomas.

Comecemos a análise pelo que há de mais básico em nossa estruturação social, o dinheiro. Não existe detento no mundo que não gere imediatamente gastos públicos para a sua manutenção. Em qualquer país em que se queira analisar existe um gasto para que uma pessoa seja encarcerada, nem que tenhamos que nos ater ao gasto de combustível de uma viatura, mas ele está lá. Pois bem, pressupondo que diminuamos erradamente a idade penal brasileira, sugere-se que façamos cortes em que setor da nossa sociedade para que possamos construir e manter novos presídios, profissionais e prisioneiros? Suponho que esta seja uma equação difícil e que por si só torna essa redução inconveniente, mas este argumento isolado é raso e breve.

O que chama mais a atenção para a falha que seria esta decisão é o fato de que de todos os países que reduziram suas idades penais mínimas, absolutamente nenhum obteve redução da criminalidade. Se nosso objetivo é criar uma sociedade mais segura, o ponto que se repete internacionalmente nas nações que alcançaram esse cenário é a educação de qualidade.

Estudos de caso como base para a repetição de um modelo, no entanto, são sempre um fracasso, pois um olhar superficial para compreender algo tão complexo seria perder-se entre as características de cada local; então, dizer que a Bolívia tem idade penal de dezesseis anos não justifica diminuir a brasileira, pois o Japão tem a maioridade penal em vinte e um anos, e isso também não justifica aumentar a nossa. Temos que olhar de duas formas: a escala global para compreender o fenômeno da criminalidade no mundo e depois sim, pensarmos no nosso caso. Apenas copiar ideias teria como destino de um projeto penitenciário uma única possibilidade: a falha. Nossa realidade é única e deve, ainda que à luz de experiências internacionais, ser analisada como um cenário específico e ímpar, que requer adaptações precisas em suas políticas públicas.

Costumamos dizer que o sistema penitenciário brasileiro não funciona o que, no fundo, é verdade. Não funciona para punir parentes de autoridades ou para as próprias autoridades. Não funciona para seu objetivo primordial, que é recuperar o indivíduo como agente social. Em geral 70% das pessoas que estiveram encarceradas voltam a cometer crimes em nosso país. É uma escola do crime, onde o ladrão de galinhas arrependido vai conviver com o cabeça do crime organizado. É ali, com certeza, que não quero nossas crianças. Neste aspecto, podemos criticar nossas penitenciárias, porém, dizer que a lei no Brasil não pune (o pobre) é um erro básico. Temos cadeias superlotadas. Todas. Punimos excessivamente. Onde mais poremos pessoas? Simplesmente não há espaço físico. O que parece mais coerente é evitar que novos criminosos surjam.

Sinto, mas é hipócrita pedir cadeia ao menor assaltante no semáforo e não aos donos de bar que vendem bebida alcoólica aos mesmos menores, ou os que chegam de carrão e compram sua droga das mãos de crianças. Se quisermos alongar o debate, sonegar impostos, beber antes de dirigir dirigir e consumir produtos “piratas” também são crimes, mas o objetivo aqui não é definir o que é crime e sim proteger os jovens. O empenho real desse texto é pensar em como persuadir o jovem marginalizado a viver a vida pelo viés da qualificação e do emprego, e de que isso vale a pena. Fechar a fábrica de criminosos que nosso país se tornou.

Enquanto nossa educação for tratada como o apêndice e enquanto o caminho criminoso for mais fácil para que a criança não seja condenada à severa punição da exclusão social ou a de seu próprio grupo, seja por não poder ter o tênis que os outros têm ou por não usar o celular que os outros usam, enquanto não percebermos que nossas cidades segregacionistas se transformaram em fábricas de criminosos, não vai adiantar levantar a bandeira da redução da maioridade penal. A cada preso, um novo jovem fora da lei surgirá.

Ver o pai procurar emprego dia após dia, voltar decepcionado e ter o medo de ser o filho escolhido para passar fome naquela noite não é exatamente o incentivo social ideal para que o caminho “qualificação – emprego” seja adotado. A qualificação é difícil e o emprego improvável.

Neste contexto, sejamos realistas, ninguém terá medo de punição. Pense no caminho: acordar para ir a uma escola onde talvez haja um professor, para talvez ter aulas e talvez, um dia, se formar para, talvez, arrumar um emprego e talvez receber um salário mínimo de miséria. Me perdoe a repetição, mas talvez a falta de esperança seja uma “pena de vida” muito mais dura do que a do encarceramento, e quem a cumpre está disposto a arriscar.

Prenderemos aos 16. Amanhã aos 14, depois aos 12 e aos 10, até que os sádicos queiram eliminar a idade mínima, sem nunca pensar que o sucesso na redução da criminalidade vem sempre de exemplos baseados em melhorias na educação e no emprego, nunca na punição. Nação que não qualifica para o mercado de trabalho qualifica, em termos gerais, para “outro tipo de mercado”. Quando é que vamos criar um sistema educacional que dispute o jovem com a criminalidade e vença? Quando nossa educação será relevante na construção de um futuro? E que futuro será esse?

O jovem de classe baixa precisa de compreensão e atenção. Quem tem oferecido isso é o crime organizado.

Rio de Janeiro, um morro qualquer. Dia frio. O carrão diminui a velocidade e começa a acompanhar dois jovens de quinze anos, que usavam o uniforme surrado da escola pública – camiseta, bermuda e chinelo. Eles voltam da escola, a aula foi suspensa. Tiroteio. É uma pena, eles queriam a merenda, afinal, almoço hoje não vai ter.

“E aí, molecada. Tão com fome? Frio? De novo…

Pai sumido e mãe desempregada, né? Não tá fácil pra ninguém…

Entra no carro, vamos ali no shopping comer um lanche. Vocês escolhem uma blusa de frio e um tênis legal cada um. Um celular pra cada um falar no whatsapp com os amigos. Aí vocês não vão mais pra escola, não. Nunca aprenderam nada mesmo!

Fica ali, na entrada da favela sentadinho, quando a polícia chegar vocês estouram um rojão e saem correndo. Mas tem que ser todo dia. Quarenta ´conto´ por dia, tá bom? Valeu!”

 O “correto” é recusar o aliciamento. Óbvio que na prática o “correto” não acontece.

Enquanto formos (in)diretamente administrados pelo mercado, inclusive da educação e da segurança, que são muito lucrativos, não poderemos reclamar da transformação destes fatores em mercadorias caras e de pouco acesso, nem portanto, das consequências desse panorama.

A gentrificação que acompanhamos no espaço urbano não enobrece o morador, mas encarece o lugar. Nem todos podem se adequar ao caríssimo espaço imposto pelo sistema, logo não podem pagar por essas mercadorias, ficando renegados aos propositalmente péssimos sistemas públicos. Quem vai comprar educação se a pública for boa? Pedir dedicação ao mercado de trabalho para o adolescente que viveu situações de fome, educação precária, falta de atenção e abandono é como pedir para alguém que nunca viu a água aprenda a nadar sendo jogado em um redemoinho. Não bastassem todas as dificuldades óbvias, há fatores como o ineditismo e a incompatibilidade da bagagem de incertezas com a necessidade de uma rápida e improvável adaptação ao ambiente formal e hierárquico do trabalho. O crime que o rodeou na infância toda agora oferece um caminho mais provável de estabilização financeira. Esse jovem, diferente do “fracassado” pai, que ao buscar trabalho nunca trouxe o que a família precisou para se desenvolver, quer experimentar a sociedade do consumo que lhe é imposta. Talvez ele não se torne um adulto, é verdade, mas ele já não seria um adulto inexistente para todo o resto da sociedade, de qualquer forma?

Se quisermos destruir a criminalidade juvenil, e eu quero, precisamos tratar com mais atenção a inserção desses jovens em uma realidade que não os faça pensar que o risco de serem baleados em um tiroteio ou presos numa perseguição seja razoável frente às improbabilidades que sua vida adulta lhes trará. Isso vem da educação. Do emprego e da renda também, é claro, mas o requisito para estes é a educação pública de qualidade.

Antes que surjam tabelas erradas, 79% de 60 países analisados por uma pesquisa da UNICEF adotam a idade penal aos 18. Os outros 21% dividem-se entre idades maiores e menores que 18, não são todas menores. A Alemanha desistiu da diminuição e a Espanha voltou aos 18 após fracasso com a diminuição.

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Autor: 😎Guilherme Borçal, geógrafo, professor de Ensino Médio e cursinho pré-vestibular.

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Referência:

http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/idade_penal/unicef_id_penal_nov2007_completo.pdf

 

PROGRESSÃO CONTINUADA II

Veja o início do texto em PROGRESSÃO CONTINUADA I.

Diante da superioridade da progressão continuada frente ao modelo seriado, observada nas tabelas e nos dados acima expostos, é interessante questionar o porquê dela. Por que o uso de ciclos contribui, positivamente, para a permanência escolar e à melhoria do desempenho dos alunos?

Obviamente, ainda existem muitos setores e espaços da educação brasileira, que necessitam ser reformados e desenvolvidos. Só a implantação de progressão continuada não garante o sucesso escolar, devendo estar a ela articulada uma série de elementos que traga à escolarização uma maior qualidade social.

No entanto, o modelo de progressão continuada acompanha uma visão mais completa e crítica do que é Educação. Longe de se reduzir o ato de ensinar a uma mera transmissão de conteúdos predeterminados, ou a ação de aprender a uma simples “decoreba” dos educandos, o processo de ensino-aprendizagem é extenso e contínuo, não havendo séries que dividem o percurso educativo em seções fragmentadas e isoladas entre si (como o modelo seriado geralmente faz). Dessa forma, a reprovação e a retenção de um aluno em uma determinada série não fazem aqui sentido, uma vez que o corpo discente está inserido em um processo de construção de seu próprio saber, sem a necessidade de interrupções ou promoções de uma etapa para outra.

            De acordo com o artigo 32, inciso IV, § 2º da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação):

“Os estabelecimentos que utilizam progressão regular por série podem adotar no ensino fundamental o regime de progressão continuada, sem prejuízo da avaliação do processo de ensino-aprendizagem, observadas as normas do respectivo sistema de ensino”.

Complementando o trecho anterior, segundo o inciso III e o parágrafo 1º do artigo 30 da Resolução n. 7/2010, elaborado pelo Conselho Nacional de Educação:

“Art. 30 Os três anos iniciais do Ensino Fundamental devem assegurar:

III a continuidade da aprendizagem, tendo em conta a complexidade do processo de alfabetização e os prejuízos que a repetência pode causar no Ensino Fundamental como um todo e, particularmente, na passagem do primeiro para o segundo ano de escolaridade e deste para o terceiro.

1º Mesmo quando o sistema de ensino ou a escola, no uso de sua autonomia, fizerem opção pelo regime seriado, será necessário considerar os três anos iniciais do Ensino Fundamental como um bloco pedagógico ou um ciclo sequencial não passível de interrupção, voltado para ampliar a todos os alunos as oportunidades de sistematização e aprofundamento das aprendizagens básicas, imprescindíveis para o prosseguimento dos estudos”.

Tendo como base a legislação e os argumentos favoráveis à utilização de progressão continuada, Paro sintetiza – de forma clara e breve – as vantagens desse modelo para o desenvolvimento integral ou total de cada aluno:

“Progressão continuada e ciclos escolares, embora não tenham o mesmo significado, possuem uma relação muito íntima entre si. A primeira significa, a rigor, a “progressão” em determinado nível de ensino ou ciclo, sem que o aluno tenha de “repetir de ano”. O ciclo, em sentido restrito, é entendido como o conjunto de anos durante os quais a progressão tem validade. De um ponto de vista mais amplo, e em consonância com os avanços das ciências da educação, que consideram, por exemplo, as fases de desenvolvimento biopsíquico e social da criança e do jovem, os ciclos são uma forma de organizar o ensino em períodos que levam em conta essas fases do desenvolvimento humano, durante a formação da personalidade, oferecendo ao educando o tratamento pedagógico mais de acordo com sua idade e estágio de desenvolvimento. Aqui não há por que manter a reprovação, mesmo no final de cada ciclo, pois as mesmas ciências da educação já demonstraram, à exaustão, que tal medida é deletéria ao processo ensino-aprendizado. Só aqui, a rigor, podemos falar de progressão continuada em sentido amplo, em que a continuidade da progressão não é barrada nos finais de ciclos, mas estende-se por todo o nível de ensino”.[1]

Para finalizar, cabe fazer uma ressalva: não adianta ter progressão continuada, se os educandos são tratados de forma desigual e preconceituosa. Não há “milagre” referente ao sucesso escolar, se a lógica da exclusão no interior da escola é tão forte quanto fora dela. Analisando essa questão, o Professor Alceu Ferraro assim pontua:

“(…) que ganho terá tido o novo aluno, se a lógica da exclusão, a que estava submetido quando fora da escola, entrar com ele na escola, ou se lá a encontrar operando no processo de ensino-aprendizagem?”.[2]

No estudo de Dante Moreira Leite, Educação e Relações Interpessoais, questões importantes são levantadas, tais como a homogeneização de um corpo discente heterogêneo, os “extremos” em sala de aula e o tratamento negativo conferido ao estudante “problemático”, o qual produz um aluno desanimado em relação à sua escolarização.

Leite mostra como, na maioria dos casos, o aluno não tem possibilidades de se identificar corretamente em sala de aula, assim como na escola. O processo educativo é feito para um grande número de educandos e, por isso, os alunos são tratados como “grupo”, não como sujeitos distintos entre si. De acordo com o texto: “(…) poucos alunos conseguem ser percebidos, ou poucos conseguem identificar-se através do professor: deste não recebe de volta a própria imagem, a fim de que possam saber quem e como são”.[3] Com isso, a submissão de um corpo discente heterogêneo a um sistema homogêneo é negativa, por não relevar as qualidades e as funcionalidades particulares de cada educando, mesmo que o modelo adotado seja o de ciclos ou relativo à progressão continuada.

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

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Referências: 

[1] Vitor Henrique Paro. Progressão Continuada, supervisão escolar e avaliação externa: implicações para a qualidade do ensino. Revista Brasileira de Educação, v. 16, n. 48, set.-dez., 2011, p. 698.

[2] Alceu R. Ferraro. Escolarização no Brasil na ótica da Exclusão. In: Fracasso Escolar uma perspectiva multicultural. Porto Alegre: Artmed, 2004, p. 58.

[3] Dante Moreira Leite. Educação e Relações Interpessoais. In (org.) M. H. Patto: Introdução à Psicologia Escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997, 3ª. ed., p. 310.

PROGRESSÃO CONTINUADA I

PROGRESSÃO CONTINUADA: UMA MERA APROVAÇÃO AUTOMÁTICA DOS ALUNOS?

Nos últimos anos, de fato, os resultados da educação brasileira têm sido negativos. Diante de tantas informações desanimadoras, não demora muito tempo para que pseudo-intelectuais ou “especialistas” passem a dar seus palpites, a partir de uma série interminável de achismos profundamente equivocados.

Como normalmente se faz no Brasil, face a uma situação negativa, o primeiro impulso é encontrar um “bode expiatório”, o qual receberá toda a culpa do problema observado. No espaço escolar, ora o aluno é o culpado pelo baixo rendimento da unidade de ensino (porque ele “não gosta de estudar” ou “é rebelde e desobediente”), ora os professores que “não são capazes” de fazer o corpo discente aprender o conteúdo ensinado. Além dos sujeitos escolares anteriores, métodos de ensino-aprendizagem também recebem boa dose da culpa, tais como a progressão continuada, vulgarmente chamada de “progressão automática” por alguns grupos e conhecida como uma “mera forma de aprovar alunos problemáticos”.

Dessa forma, a primeira atitude a ser tomada pelos sujeitos escolares, é nadar contra a corrente do senso comum, aprofundando e aumentando a reflexão crítica sobre as práticas escolares, a fim de que a ação também seja crítica e potencialize tanto a aprendizagem dos estudantes, quanto o ensino da classe docente.

`           Nesse artigo, apresentarei e analisarei a “progressão continuada”, objetivando destacar as suas vantagens e os seus benefícios educacionais em relação à promoção praticada no regime seriado. Ao longo desse estudo, será possível notar que as retenções e as reprovações não auxiliam – de forma alguma – a aprendizagem dos educandos. Pelo contrário, estes dispositivos concebidos como “disciplinadores”, concorrem diretamente à internalização do fracasso escolar pelos alunos, fazendo com que eles tenham a sua escolarização prejudicada, além de aumentar as condições de evasão escolar.

Basicamente, o regime seriado é o modelo escolar em que o aluno é ensinado e avaliado durante uma quantidade delimitada de séries, podendo ser aprovado ou reprovado no final do ano, de acordo com a média ponderada das notas que receber ao longo de um semestre ou ano, articulada com outros critérios avaliativos como a frequência escolar do estudante.

            Superficialmente, a promoção através de séries não parece ser algo prejudicial para os educandos, chegando até ser vista como um instrumento “justo” por muitas pessoas. “Afinal, se o aluno estudou bastante e realizou um bom trabalho, ele merece ser aprovado, e o outro que nada fez, tem que ser reprovado e ponto final”. Será mesmo? Podemos afirmar que esse pensamento expressado pela maioria representa, exatamente, o complexo processo de ensino e aprendizagem?

Em seu artigo “Progressão Continuada, supervisão escolar e avaliação externa: implicações para a qualidade do ensino”, o pesquisador Vitor Henrique Paro ressalta os problemas centrais do modelo seriado, mostrando de que forma o aluno recebe a culpa pela sua reprovação, ao mesmo tempo em que a direção escolar não repensa as práticas pedagógicas de sua unidade de ensino. Assim ele escreve:

“Um dos pontos essenciais relativos à estrutura didática da escola fundamental é a necessidade de superação da tradicional organização seriada do ensino. A esse respeito, tem-se verificado nos últimos anos, especialmente a partir do final da déca­da de 1980, um importantíssimo movimento de tentativas de superação do “regime estúpido das repetições de série” (…), por meio da implementação do regime de ciclos e de progressão continuada em vários sistemas de ensino do país (…). Esse movimento tem-se fundamentado, em grande parte, na maior conscientização de setores responsáveis pela educação que se convencem, cada vez mais, do caráter antipedagógico da reprovação e percebem que o sistema seriado não se sustenta à luz da teoria pedagógica e tem servido apenas para jogar sobre o aluno a culpa pela incompetência do próprio sistema de ensino em levá-lo a aprender”.[1]

Além disso, o regime seriado é claramente antidemocrático, a partir do momento em que ele seleciona os “melhores” ou os “aprovados” e deixa para trás os “fracassados” (aqueles que foram “incapazes” de aprender), segregando a classe discente e recrudescendo múltiplas formas de desigualdade no interior da escola. Analisando essa questão, Paro pontua da seguinte maneira:

“O sistema seriado de ensino mostra sua procedência antidemocrática na me­dida em que serve a uma concepção tradicional de escola fundamental, preocupada não em ensinar, mas em separar os alunos que podem prosseguir, passando de série, dos que não podem. É um sistema tributário de uma pedagogia baseada no prêmio e no castigo como motivações para o estudo, esquecendo-se da característica básica do bom ensino que é a de ser intrinsecamente desejável pelo educando que, assim, estuda porque quer, fazendo-se sujeito, que é a marca da verdadeira relação democrática”.[2]

A reprovação é um dos principais obstáculos para a permanência e sucesso escolar. De acordo com a pesquisa “Avaliando o Impacto da Progressão Continuada nas Taxas de Rendimento e Desempenho Escolar do Brasil”, o baixo desempenho educacional brasileiro está relacionado a um histórico de alto abandono escolar. Segundo os autores desse trabalho, “apesar de uma grande proporção de crianças entrarem na escola, a taxa de evasão sempre foi muito alta, principalmente entre famílias mais pobres, fenômeno comum também aos países latino-americanos. (…) ao contrário do senso comum da época, a alta taxa de evasão entre os mais pobres estava relacionada à alta repetência, principalmente nas primeiras séries da escola, pois a repetência desestimula as crianças e suas famílias a continuar na escola”.[3]

Ao longo da pesquisa, os autores levantam uma série de dados e informações, que evidenciam a considerável disparidade entre as escolas que mantiveram um regime de séries e as unidades de ensino que adotaram a progressão continuada (através de ciclos e sem o uso de reprovações). Enquanto o modelo seriado de promoção concorre ao abandono escolar, a progressão continuada fez com que mais alunos não desistissem de sua escolarização, contribuindo assim à sua permanência na escola.

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Ciclo Brasil (escolas que adotaram a progressão continuada, em nível nacional); Ciclo São Paulo (escolas que adotaram a progressão continuada, no estado de SP).

Com base na tabela acima, observa-se que, no Ensino Médio, a porcentagem de reprovações é maior (particularmente, no início e no final do ciclo). No entanto, por não existir a necessidade do aluno ficar retido em uma série e ele poder continuar avançando juntamente com seus colegas de classe, torna-se quase nula a internalização do fracasso escolar, fazendo com que esse aluno não abandone a escola.

De acordo com os autores, “o impacto sobre as taxas de abandono e aprovação no ensino médio também são estatisticamente significativas. No caso da aprovação, o impacto é menor, mas no caso do abandono, o impacto é surpreendentemente maior do que no ensino fundamental. Os resultados da análise de impacto, portanto, comprovam que houve transbordamento dos efeitos da adoção de ciclos no ensino fundamental para o ensino médio. Uma possível explicação para esse resultado seria que os alunos que frequentam o ensino fundamental em escolas com ciclo têm maior probabilidade de alcançar o ensino médio na idade adequada, o que incentiva a continuidade dos estudos, ou seja, reduz o incentivo aos alunos (e suas famílias) a decidirem abandonar a escola e ingressar no mercado de trabalho”.[4]

Mais a frente, esses estudiosos reafirmam os prejuízos oriundos do modelo seriado escolar e os benefícios da progressão continuada para a permanência dos alunos na escola:

“A política de não reprovação pode afetar a decisão dos alunos em relação aos estudos (ou de seus pais, em seu benefício) em dois níveis. Independentemente de qualquer decisão de investimento a longo prazo, a reprovação tem um efeito psicológico ruim sobre o aluno, desincentivando a continuação dos estudos. Além disso, considerando o investimento em capital humano, o custo de um ano adicional de estudo torna-se mais alto com a repetência, o que pode reduzir o número de anos de escolaridade ótimo em um cálculo de maximização de retorno da educação. A política de não reprovação, portanto, pode mudar a decisão de alunos (ou pais) de evasão escolar”.[5]

Além de não oferecer condições à ocorrência de evasão escolar, as médias de desempenho nas escolas com progressão continuada são relativamente maiores às seriadas, como se pode observar na tabela abaixo.

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A tabela abaixo também traz as probabilidades estimadas de conclusão dos ensinos fundamental e médio na idade correta, assim como a probabilidade média independente das reprovações nessas fases. No caso das escolas com ciclo ou com progressão continuada, a probabilidade de conclusão de todo o ensino fundamental é de 61,3% e do ensino médio de 36,5%. Para as escolas seriadas essas probabilidades são de 50% e 24%, o que evidencia a defasagem idade-série e o fracasso desse modelo.

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Diante da superioridade da progressão continuada frente ao modelo seriado, observada nas tabelas e nos dados acima expostos, é interessante questionar o porquê dela. Por que o uso de ciclos contribui, positivamente, para a permanência escolar e à melhoria do desempenho dos alunos?

(A resposta fica para a próxima parte dessa investigação).

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

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Referências: 

[1] Vitor Henrique Paro. Progressão Continuada, supervisão escolar e avaliação externa: implicações para a qualidade do ensino. Revista Brasileira de Educação, v. 16, n. 48, set.-dez., 2011, p. 697.

[2] Vitor Henrique Paro. Progressão Continuada, supervisão escolar e avaliação externa: implicações para a qualidade do ensino. Revista Brasileira de Educação, v. 16, n. 48, set.-dez., 2011, p. 697-698.

[3] Naércio Menezes Filho; Lígia Vasconcellos; Sérgio Ribeiro da Costa Werlang; Roberta Loboda Biondi. Avaliando o Impacto da Progressão Continuada nas Taxas de Rendimento e Desempenho Escolar do Brasil. 13º LACEA, São Paulo, 2008, p. 2.

[4] Naércio Menezes Filho; Lígia Vasconcellos; Sérgio Ribeiro da Costa Werlang; Roberta Loboda Biondi. Avaliando o Impacto da Progressão Continuada nas Taxas de Rendimento e Desempenho Escolar do Brasil. 13º LACEA, São Paulo, 2008, p. 14-15.

[5] Idem, p. 11-12.

ESCOLA COM POLÍTICA

Vamos falar de política, partido, liberdade, autonomia, cultura, formação e currículo?

Devido à diferente formação dos professores (acadêmica e experimental) e também à justa autonomia que eles têm em relação às suas aulas, o currículo real é, em quase todos os casos, uma variação de grande amplitude do currículo oficial proposto pela escola.

Também pelo fato de alguns docentes utilizarem de forma consciente a história, cultura e conhecimentos prévios dos alunos e da comunidade em que a escola está inserida, o currículo real torna-se ainda mais significativo, já que o currículo explícito (ou formal) tradicionalmente exclui fatores multiculturais. Justamente por esse motivo, atualmente os currículos buscam ressignificar o cotidiano e fazer uso das culturas em que a sociedade está inserida, trabalhando assim com uma maior proximidade no suposto currículo real, mesmo que a prática ainda seja (e precisa ser!) uma variação do que está formalmente proposto.

Um professor limitado ao currículo formal é incapaz de contextualizar e comparar, retirando do aluno a possibilidade de interagir com o conteúdo de forma real. Por outro lado, um educador mal remunerado, desvalorizado e com formação (possivelmente) deficitária, não estará preparado para abrir nuances fora do currículo formal. Infelizmente esta é uma realidade do ensino público brasileiro. (Veja mais em ZANNI, 2018)

Em cima disto, projetos de lei que não permitam a autonomia do professor, como o “escola sem partido”, são extremamente maléficos por colocar e classificar todos os professores em uma única linha, privando alunos de debates agregadores e construtivos e punindo professores por expor e falar sobre assuntos importantes e necessários. Obviamente existem professores que não conseguem lidar com a autonomia que recebem e utilizam da sala de aula para campanhas político-partidárias, mas não podemos colocar todos os docentes em um mesmo “saco”. Ter uma boa formação docente é essencial para que, mesmo tendo suas próprias opiniões e ideologias, o professor saiba apresentar e movimentar o debate por todos os lados, com domínio do conteúdo sem viés pessoal, mas com viés político.

Escola sem partido sim, escola sem política não. A política está em cada um de nós; viver em sociedade, para si mesmo e para o outro, é viver politicamente.

Maria Inês Salgado de Souza (2010) coloca, em seu estudo pela PUC Minas, a grande polêmica entre conteúdos eruditos versus conhecimentos do senso comum. Enquanto um cria normas, regras e valoriza apenas o aprendizado cognitivo das disciplinas de forma fragmentada, o outro traz a existência diária do homem comum, a cultura popular e a correlação entre objetos estudados e objetos reais.

Ainda segundo SOUZA (2010), “a cultura está sendo considerada um dos aspectos mais centrais que ajudam a entender as sociedades contemporâneas”, mas as escolas e seus responsáveis precisam ter ciência desta visão pluralista, sem abandonar os conteúdos técnicos e científicos. Não se pode correr riscos de que aconteça um esvaziamento de conteúdos, deixando como único foco o entendimento humano. “O mundo globalizado e tecnologicamente orientado necessita de cidadãos e cidadãs abertos ao conhecimento universal”.

Uma geração que não aprenda, por exemplo, sobre diversidade étnica e as frações da sociedade historicamente discriminadas, manterá sua “bolha” e preservará seu viés ideológico político e social. Através da Lei 10639/03, professores devem trazer para a sala de aula a História Africana e as relações étnico-raciais envolvendo o afrodescendente no país. Pelo poder das culturas e conteúdos históricos, artísticos e linguísticos provenientes das etnias africanas transferidas para o Brasil, durante o regime de escravidão, é necessário também um olhar para a (re)inserção de pessoas que não tiveram oportunidades igualitárias dentro de uma mesma sociedade e por isso deixaram de produzir ou divulgar todo seu conhecimento.

Tem-se buscado saídas: desde os chamados “programas compensatórios”, como por exemplo as cotas para negros e alunos provenientes de escolas públicas que desejam adentrar no ensino superior. Estes programas não resolvem nenhuma situação a curto prazo, mas criam possibilidades de iniciar um novo olhar para uma grande e importante parcela da sociedade que tem os mesmos direitos, mas historicamente não teve oportunidade de usufrui-los.

Veja mais sobre os efeitos positivos destes programas nesta reportagem de O GLOBO.

“Por recorrer às perspectivas de críticos teóricos, o ensino culturalmente relevante tenta produzir conhecimento desafiador. Os alunos são desafiados a ver educação (e conhecimento) como um veículo para a emancipação, para entender o significado de suas culturas e para reconhecer o poder da linguagem” (GIBSON, 1986, apud Ladson-Billings, 2008).

Mesmo que a cultura seja uma das responsáveis por questões complexas como as diferenças sociais, ela sozinha não responderia e não daria conta de todas as realidades a que o homem contemporâneo é submetido. Também é claro que o currículo não faria sentido sem uma escola para praticá-lo, todavia uma escola basear seu currículo apenas em experiências cotidianas e culturais traria uma precarização e um empobrecimento na educação com consequências sérias para o desenvolvimento tecnológico e científico das próximas gerações. Todo direcionamento e escolha de currículo deve ser pautado por critérios pedagógicos e educacionais, não colocando como único foco uma ou outra cultura na qual o aluno possa estar inserido, evitando assim os “relativismos empobrecedores” (FORQUIN, 2000).

Surgem assim currículos chamados de adicionais ou alternativos, muitas vezes no contra turno ou no próprio período de aula, com disciplinas optativas (em que o aluno escolhe seu aprofundamento e direcionamento) ou com projetos sociais e culturais (como por exemplo a valorização das diferenças, a multiculturalidade ou a inteligência emocional).

Concluindo, SOUZA (2010) diz que é necessária a “busca política por um currículo que promova a igualdade e a justiça curricular universais”. Assim, devemos utilizar os fatos cotidianos para estudar os temas inter e transdisciplinares que a escola tradicionalmente coloca-se para ensinar, além de propor a crítica do presente em comparação com fatos históricos de outras épocas e outros espaços, locais e países. Promover o progresso científico e tecnológico, prospectando que próximas gerações tenham maior consciência de sua utilização como cidadãos pertencentes a uma sociedade multicultural, também deve ser um pilar da nova escola.

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Autor: 🤓Rafael Pellizzer, professor de matemática e coordenador pedagógico.

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Referências:

ZANNI, G., Fracasso Escolar V. Disponível em <https://vamosfalardeeducacao.com/2018/11/13/democratizacao-da-educacao/>. Acesso em 13 de Novembro de 2018.

BRASIL, Lei 10639/ de 9 de janeiro de 2003- Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996.

FORQUIN, Jean-Claude. O curriculo entre o relativismo e o universalismo. In Educacao e Sociedade, Dossie ‘ Politicas curriculares e decisões epistemológicas’ , no. 73, Dezembro de 2000, p. 47-70.

LADSON-BILLINGS, Gloria. Guardiões de sonhos. Belo Horizonte: Autentica, 2008.

SOUZA, Maria Inez Salgado de, CURRÍCULO, CULTURA E COTIDIANO – ALGUMAS NOTAS A PARTIR DE ESTUDOS DAS FORMAÇÕES CURRICULARES NA CONTEMPORANEIDADE, Puc – Minas, 2010.

DEMOCRATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

A democratização da educação e o acesso ao Ensino Superior Público no Brasil

Carlota Boto em seu artigo A educação escolar como direito humano de três gerações: identidades e universalidades, enquanto descreve o que seria a “escola ideal”, ela considera a Educação um direito humano, o qual deve estar ao alcance de todos os indivíduos.[1]

Não só Carlota Boto defende o acesso de todos à educação, mas também a atual Constituição brasileira a afirma. O novo texto constitucional – promulgado em 5 de outubro de 1988 – trouxe importantes vitórias como o reconhecimento da extensão dos direitos sociais, incidindo diretamente no campo educacional.

No art. 205, a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família, sendo fomentado e motivado com o auxílio da sociedade.[2]

O art. 208 estabelece as obrigações do Estado com a educação. O artigo afirma sete garantias à população. Dentre eles, a quinta se liga diretamente à questão do acesso ao Ensino Superior, em que nela há a “possibilidade de acesso à graduação e à pós-graduação”.[3]

No Capítulo 2 – Dos Direitos Sociais – inserido no Título 2 (Dos direitos e garantias fundamentais), o Artigo 6º determina que um dos direitos sociais seja a educação.[4]

Entretanto, que bom seria se tudo o que estivesse escrito no texto constitucional, ocorresse na realidade. A contradição é observada quando confrontamos a Teoria, isto é, a Constituição Brasileira, com a Prática, aquilo que se vê no cotidiano educacional. Sendo a educação um direito fundamental que deve ser assegurado, quando se passa à realidade, a maior parte do que se nota é um ensino público carente de recursos e de baixa qualidade. A “escola” brasileira convive com a organização ineficiente de um sistema educacional subdividido e desigual que oferece para os alunos pobres – em sua maioria – um ensino de baixíssima qualidade.[5]

A partir desses elementos, o acesso ao Ensino Superior (também garantido pela Constituição) é um dos problemas que envolvem a Educação brasileira, o qual se agrava ainda mais quando se trata do ingresso dos estudantes nas universidades públicas.

Segundo algumas pesquisas como as da GEA (Grupo Estratégico de Análise da Educação Superior no Brasil), o que se nota, atualmente, é a maior entrada de estudantes nas instituições privadas, em detrimento do baixo acesso às universidades públicas e federais. De acordo com os pesquisadores, “a relação entre oferta pública e privada observada na educação básica se inverte na educação superior, onde desde os anos 90 as instituições particulares contam com 75% da matrícula.”[6] A partir disso, é possível ver o quão baixo está o acesso ao Ensino Superior público no Brasil.

Outro aspecto importante é a porcentagem de alunos pobres no Ensino Superior público. Com base nos dados levantados pelo GEA, mais da metade dos alunos vem das classes sociais mais altas, enquanto os alunos pertencentes aos grupos mais pobres da população permanecem em minoria nas universidades públicas.

Porcentagem semelhante se vê também nas proporções dos estudantes originários das escolas públicas. De acordo com as estatísticas levantadas pelos pesquisadores, grande parte dos alunos que ingressam nas faculdades públicas brasileiras estudou em escolas particulares. Segundo o GEA: “É necessário inferir, portanto, que, para um aluno originário do ensino médio privado e pago, a oportunidade de chegar à educação superior, em especial em cursos de alta demanda, é várias vezes superior a de seus colegas originários da escola pública e gratuita”.[7]

Com base nesses elementos, cabe ao governo brasileiro refletir ou reconsiderar a estrutura da educação superior pública no país. É necessária e urgente a criação de uma série de medidas que articulem expansão e democratização da educação. Dessa forma, será possível fazer com que o Ensino Superior Público passe a promover a igualdade de oportunidades, acesso, inclusão e permanência para todos os futuros estudantes.[8]

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

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Referências:

[1] Carlota Boto. A educação escolar como direito humano de três gerações: identidades e universalismos. Educação e Sociedade. Campinas, v. 26, n. 92, p. 795.

[2] Eliana Franco Teixeira. O direito à educação nas constituições brasileiras. Belém, PA: UNAMA, 2001, p. 100.

[3] Idem, p. 110-111.

[4] Marcos Cezar de Freitas. História Social da educação no Brasil. São Paulo: Cortez, 2009, p. 320.

[5] Cadernos do GEA. n.1 (jan./jun. 2012). Rio de Janeiro: FLACSO, GEA; UERJ, LPP, 2012, v. Semestral, p. 6.

[6] Cadernos do GEA. n.1 (jan./jun. 2012). Rio de Janeiro: FLACSO, GEA; UERJ, LPP, 2012, v. Semestral, p. 5.

[7] Idem, p. 9-10.

[8] Idem, p. 10.

ESCOLA EMANCIPATÓRIA E DEMOCRÁTICA

Pais e mães atarefados, trabalhadores do mundo contemporâneo, super dedicados às suas empresas, funções e atribuições profissionais. Este novo contexto, esta nova sociedade, do qual eu e você somos parte pode trazer consequências à educação de nossos filhos e das próximas gerações.

Qual é o papel da escola e da família nesta revolução social diária que vivemos?

Por experiência própria das pessoas com mais de 25 anos e por estudos como de Libâneo, sabemos que as escolas, nas últimas décadas, embasaram seus currículos de forma técnico-científica devido à evolução (e revolução) tecnológica. Hoje, é necessário buscar concepções escolares mais democrático-participativas, construindo cidadãos que estejam preparados para esta pós-modernidade definida por Bauman, décadas atrás, como “modernidade líquida”. Um mundo fluido, volátil, diariamente mutável, globalizado e com relações humanas encurtadas porém transformadas e distorcidas.

Este novo mundo define um novo mercado de trabalho, ainda desconhecido, mas certamente exigente por pessoas com habilidades nas relações inter e intra-pessoais, culturais, sociais, políticas e sustentáveis, fazendo com que as escolas abram espaços para novos currículos e estruturas que privilegiem o desenvolvimento integral do aluno, de maneira formativa e emancipatória.

Estudos sobre os textos do filósofo Adorno trazem que a emancipação é a formação para a autonomia e, por outro lado, depende da existência de um processo coletivo, pois uma mudança individual não provoca, necessariamente, mudança social, mas é precondição. Portanto, a educação deveria contribuir não apenas para o processo de formação, mas também para a emancipação, ajudando os indivíduos a conquistarem autonomia, por meio de um processo social. Emancipação não diz respeito apenas ao indivíduo como entidade isolada, mas principalmente como um ser social. Emancipação é pressuposto da democracia e se fundamenta na formação da vontade particular de cada um, ou seja, é preciso garantir que cada um possa se servir do seu próprio entendimento.

Então, para essa construção de uma sociedade emancipada e sustentável, as escolas atuais podem e devem também abrir espaços para a participação da comunidade (famílias, pais, alunos, professores e funcionários), possibilitando assim crescimento de todos dentro deste mundo ainda incógnito.

Debates sobre filmes relacionados à educação abrem espaço para que todos conheçam mais sobre algumas dificuldades da educação atual, além de incentivar discussões acerca dos possíveis caminhos futuros que devemos seguir. Por exemplo, os documentários Nunca me Sonharam (2017, produzido por Maria Farinha Filmes e dirigido por Cacau Rhoden) e A Educação está Proibida (2012, produzido por Redes de Pares e Reevos e dirigido por German Doin) trazem, respectivamente, análises e reflexões sobre a educação pública no Brasil e pedagogias e práticas em salas de aulas ao redor do mundo. (#ficaadica: estes filmes estão gratuitamente disponíveis em Videocamp)

Outra abertura que as escolas (principalmente públicas mas também as particulares) podem dar para a comunidade é incentivando a formação de Conselhos Escolares e Associações de Pais e Mestres; desde que ambos os lados tenham o equilíbrio entre saber opinar, ouvir, ceder, construir. Ou seja: ensinar e aprender.

Construindo democraticamente o que se acredita como educação dentro da escola/comunidade, certamente haverá melhora na relação entre escola e família, evitando assim, por exemplo, a evasão escolar – ainda muito presente na rede pública brasileira – e aumentando as possibilidades de desenvolvimento integral e social dos alunos e suas famílias dentro da sociedade.

Para a instituição escolar, agregar a diversidade de pessoas e suas respectivas concepções de educação, não apenas ensina aos alunos de forma prática a importância de respeitar as diferenças, mas também constrói uma escola mais agregadora e respeitosa no âmbito em que todos se sentem parte do processo educacional que começa em casa e continua na escola (e vice-versa!).

Pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 206, e pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB 9.394/96) de 1996, em seu artigo 3°, o princípio de Gestão Democrática deve estar instaurado no ensino brasileiro. Porém, por si só, a lei não cuida da prática no dia a dia. Cabe então aos Gestores Escolares (Diretores, Vice-Diretores, Coordenadores) e aos órgãos colegiados estabelecerem canais para decisões compartilhadas e criação de vivências, conhecimentos e ambientes de aprendizagem, em casa e na escola, que possam ajudar a produzir um ensino e uma sociedade cultural e politicamente mais qualificada.

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Autor: 🤓Rafael Pellizzer, professor de matemática e coordenador pedagógico.

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Referências:

LIBÂNEO, J. C, A organização e a gestão da escola: teoria e prática. Goiânia: Alternativa, 2004.

BAUMAN, Zygmunt, Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed 2001.

ADORNO, Theodor W., Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 3ª ed. 2003.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases 9.394/96. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm. Acesso em outubro 2018.

FRACASSO ESCOLAR IV

Parte IV de V

Wundt, um estudioso oitocentista, desenvolveu um estudo sobre as diferentes reações dos indivíduos em relação a variados ambientes. Partindo de um espaço determinado, o experimento mostrava como as pessoas reagiam de formas diferentes de acordo com a sua adaptabilidade, evidenciando capacidades distintas de se relacionar com o local em que estavam inseridas – os mais e os menos adaptados. Utilizando a escola como o campo de análise, alguns pesquisadores se apropriaram das ideias de Wundt, procurando delimitar e definir quais eram as “capacidades” de cada aluno. O emprego desta visão equivocada, por parte dos membros da equipe escolar, gerou – e ainda gera – inúmeras formas de preconceito no interior das unidades de ensino brasileiras (por exemplo, os alunos “normais e mais dotados” e os “anormais” cuja aprendizagem é baixa).

Isto ficou evidente durante o estágio, a partir do momento em que foi observado que alguns professores dividiam as suas turmas em dois extremos: os inteligentes e os atrasados. Segundo Dante Moreira Leite, “(…) a grande maioria é ignorada, e são percebidos apenas os extremos; de um lado, aqueles que apresentam as qualidades mais admiradas pelo professor, de outro, os que apresentam as qualidades mais rejeitadas”.[1]

Observando algumas aulas, foi possível notar que cada professor tem seus alunos “preferidos”, os que dão orgulho e animação ao docente por tê-los em sua turma. Por outro lado, também existem os estudantes rejeitados, normalmente, aqueles que possuem um fraco desempenho, dificuldades para aprender, pouca atenção às aulas expositivas, entre outras características expostas pelos educadores.

Esta divisão, algumas vezes, foi expressa em sala de aula através da atitude alguns docentes. Expresões que deveriam ter sido ditas para o estudante em um local mais particular foram faladas na frente de toda a turma, causando desconforto e mal-estar ao aluno. Palavras como “burro(a)”, “terrível”, “preguiçoso(a)”, entre outras foram proferidas por alguns educadores. O maior problema disso não está somente em expressar estes termos. A consequência mais negativa é que alguns desses alunos internalizem estas palavras pesadas, acreditando que não passam de estudantes “burros e incapazes”.

Durante o conselho de classe, expressões carregadas de preconceito também foram faladas pelos professores e coordenadores. Diante do caso de um aluno que ficou de recuperação em todas as disciplinas, frases foram ditas como: “este aluno deve ser encaminhado para algum psicólogo, ele é doente!” Em outros casos também de fraco desempenho de alguns estudantes, foi ouvido que eles eram “drogados”, “fracassados”, “idiotas”, entre outros termos pesados que evidenciam o elevado preconceito entre os membros da equipe escolar.

Além disso, preconceituosamente, há uma persistência da equipe escolar em relacionar os problemas de aprendizagem de alguns alunos com patologias, sendo que eles não possuem qualquer problema de saúde. Tal atitude é evidenciada no estudo Preconceitos no cotidiano escolar: ensino e medicalização de Cecília A. L. Collares e M. Aparecida A. Moysés, em que o aluno observado durante a pesquisa – Reginaldo – é “anormalizado” pela escola, sendo enviado para um atendimento médico mais especializado. Todavia, após os exames, o diagnóstico final foi de que o Reginaldo era normal, “ressaltando a ausência de qualquer patologia que pudesse explicar seu mau rendimento escolar”.[2]

Diante desses elementos, foi possível ver o quanto as diversas formas de preconceito presentes na escola, prejudicam a aprendizagem de cada estudante, especialmente, os que possuem maiores dificuldades. Além disso, elas retiram do interior de cada professor qualquer esperança de poder ajudar algum estudante a recuperar aquilo que não foi absorvido e compreendido, ao longo de sua escolarização. Uma das manifestações da perda de confiança dos docentes em relação aos alunos com desempenho insatisfatório, foi a falta de apoio às recuperações dos alunos. Perguntando para alguns professores sobre o grau de eficiência das recuperações, foi possível perceber – através da resposta de cada um – que eles não acreditam no seu sucesso, nem na sua efetividade. De acordo com a professora S. de Biologia: “Os alunos não fazem nada, mesmo com tantas atividades fáceis e simples para atingir 5 pontos. Enquanto os alunos não se importarem com a educação, a recuperação permanecerá inútil”.

Sobre as medidas a serem tomadas para auxiliar o aluno com dificuldades, a vice-diretora disse que a escola vem elaborando planos e metas para superar este problema. Projetos como as “atividades de recuperação contínua” revelam a busca pelo aumento da qualidade de ensino para os alunos com desempenho insatisfatório, a qual depende da preparação dos docentes ao atendimento dos estudantes com maiores dificuldades, visando aumentar e estabilizar a permanência desses educandos na unidade de ensino.

Diante disso, algumas perguntas podem ser geradas. Ora, visto o preconceito altamente presente entre os professores, os “planos e metas” expressados pela vice-diretora podem ter sucesso? Os alunos com dificuldades serão, realmente, ajudados por alguns educadores que pouco acreditam em sua recuperação? Assim como Alceu Ferraro observou em seu texto, a exclusão e o preconceito na escola são grandes barreiras ao sucesso escolar, permanecendo ineficaz qualquer medida que vise a melhoria do ensino e da aprendizagem.[3]

Outro ponto a ser destacado é a nula concessão de “voz” aos alunos, conferida pela equipe escolar. Ao deixar os alunos falarem, seja no debate promovido com a turma do oitavo ano, seja em algumas rodas de conversa durante o intervalo, foi possível ouvir interessantes questionamentos sobre o funcionamento e a qualidade da escola.

Em relação às aulas, algumas propostas de modificação foram feitas por cada um dos estudantes. Dentre elas, a condução dialógica do ensino (os estudantes disseram que a aula feita através de diálogos é melhor e facilita o entendimento), a maior participação discente na sala (os educandos criticaram o fato de só o docente poder falar, enquanto eles devem ficar quietos, só ouvindo), aulas mais dinâmicas e criativas (o ensino feito através do uso do cinema e da música foi sugerido), entre outras ideias interessantes. Todavia, pela falta de espaço concedido aos alunos, estas propostas permanecem só no ideário discente, não existindo qualquer tentativa – por parte dos professores e da coordenação escolar – de trazê-las à prática.

Cíntia Freller, no capítulo O trabalho com os alunos, aponta que, mesmo com ideias positivas que visam melhorar e pacificar o ambiente escolar, os professores, de modo geral, possuem uma imagem negativa em relação ao corpo discente. Não vêem que seus alunos têm interesse pela escola e querem contribuir com ela, auxiliando em suas necessidades. Segundo a autora, “grande parte dos professores, diretores, familiares (…) repetem o discurso de que os jovens são irresponsáveis, preguiçosos, desinteressados, querem moleza e folga. (…) Não conseguem admitir, nem de longe vislumbrar, que se trata de uma contribuição que merece ser bem recebida, a fim de possibilitar novas chances àqueles alunos, procurando introduzir um círculo positivo ao invés de reforçar o círculo vicioso negativo”.[4]

Sobre a equipe escolar, os alunos também trouxeram críticas significativas. Dentre elas, a rigidez de alguns docentes (além de ineficiente, é prejudicial à aprendizagem), o descaso de alguns educadores em relação ao corpo discente, a pouca habilidade de alguns professores em organizar a sala de aula, entre outras.

Evitando estabelecer julgamentos sobre se estão corretos ou não os questionamentos feitos pelos estudantes, o que é necessário frisar aqui é que eles se importam com a sua escola. De forma alguma, eles estão despreocupados e sossegados diante da precária estrutura de ensino que estão inseridos. Ao contrário do que alguns membros da equipe escolar relataram, os alunos não só querem “voz”, mas também querem participar e serem ativos (e não passivos) no processo de escolarização.

A partir desses elementos, há de ser destacada uma importante passagem – escrita por Cíntia Freller – sobre o desejo de participação e inclusão dos alunos no processo de escolarização. Segundo a autora, para os estudantes, aprender é necessário para que eles tenham a sua vida melhorada, sendo a escola o lugar mais apropriado para eles alcançarem seus objetivos, mesmo a escola sendo um espaço desigual, excludente, conflituoso, além de existirem professores desvalorizados e desanimados que também não reconhecem o seu desejo de estar na unidade de ensino. Segundo a autora: “É surpreendente que, apesar das práticas excludentes, preconceituosas e humilhantes às quais muitas vezes são submetidos na escola, não desistem, continuam valorizando, frequentando e tentando conquistar um espaço nesta instituição”.[5] Com isso, é possível perceber que os alunos não só buscam alcançar uma vida melhor, mas também “criar” um mundo em que possam participar. A escola se torna um espaço de identificação para os alunos, um lugar que os concede identidade.

A partir das observações anteriores, percebe-se o quão amplo e complexo é o problema fracasso escolar. Trata-se de um objeto de estudo que não está restrito somente às “paredes” e “corredores” da escola, mas também está integrado, intimamente, à sociedade. Tendo isso em mente, chega-se ao elemento final das observações realizadas durante o estágio, que é a influência de uma sociedade desigual e excludente sobre a escola.

A escola, como parte integrante desta sociedade, reproduz a exclusão e inúmeras formas de desigualdade, que são compartilhadas, cotidianamente, pelos alunos, professores, coordenadores e diretores. A presença desses elementos negativos, portanto, inutiliza qualquer iniciativa e estratégia para combater o fracasso escolar, já que os sujeitos escolares, por terem absorvido diversos tipos de preconceito, representam barreiras às políticas de incentivo e acentuação da qualidade do ensino.

Questionando a aplicabilidade das políticas públicas, a vice-diretora pontuou que elas se mostraram, até então, ineficientes à solução dos problemas que ela e seus colegas de trabalho enfrentam na escola. Novamente, citando Alceu Ferraro, em sua pesquisa, o autor mostra como a exclusão na escola, assim como os diversos tipos de desigualdade e preconceito existentes, não somente inutilizam as políticas públicas, mas também impedem que os alunos tenham seu direito garantido à educação, fazendo com que permaneça ou, em alguns casos, se agrave o problema do “fracasso escolar”.[6]

Na Parte V apresentaremos as conclusões finais desta investigação.

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

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Referências:

[1] Dante Moreira Leite. Educação e Relações Interpessoais. In (org.) M. H. Patto: Introdução à Psicologia Escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997, 3ª. ed., p. 312.

[2] Cecília A. L. Collares e M. Aparecida A. Moysés. Preconceitos no cotidiano escolar: ensino e medicalização. São Paulo: Cortez, 1996, p. 16.

[3] Alceu R. Ferraro. Escolarização no Brasil na ótica da Exclusão. In: Fracasso Escolar uma perspectiva multicultural. Porto Alegre: Artmed, 2004, p. 58.

[4] Cíntia C. Freller. O trabalho com os alunos. Histórias de indisciplina escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, P. 95-97.

[5] Idem, P. 81.

[6] Alceu R. Ferraro. Escolarização no Brasil na ótica da Exclusão. In: Fracasso Escolar uma perspectiva multicultural. Porto Alegre: Artmed, 2004, p. 58.