QUEM É VOCÊ EM UMA PANDEMIA?

É hora de ficar em casa e precisamos de cuidados para manter mente e corpo ativos.

Agora não dá mais para reclamar da falta de tempo para brincar com os filhos ou para ler um livro. A responsabilidade de organizar a própria rotina agora é totalmente sua.

Além disso, profissões e pessoas que andavam longe da tecnologia, precisarão se reinventar e abrir janelas de oportunidades.

Este texto tem o propósito de ajudar professores e alunos na auto-organização de maneira simples e direta, dividindo o assunto em três tópicos: questões intrapessoais, interpessoais e cognitivas.

Como cuidar do emocional para não surtar?

Dica 1) tenha um momento exclusivamente seu. Reveze com seu parceiro ou parceira o momento de cuidar das crianças, escute sua música preferida durante o banho, vá para a cozinha fazer o prato que mais gosta. Sem pressa.

Dica 2) equilibre as notícias pessimistas e as otimistas que chegam até você. Se você tem aquele parente que só manda informações sobre o fim do mundo, fale com ele uma ou duas vezes por semana apenas. E tem também aquele amigo que só vê o lado bom das coisas: talvez ele esteja fazendo churrasco em tempos de isolamento. Filtre o que chega até você e coloque limites.

Dica 3) faça exercícios físicos, mesmo que simples. Limpar a casa, brincar com seu amiguinho de estimação ou 3 sessões de 15 polichinelos por dia. Corpo e mente são uma coisa só. Mantendo o físico em ordem, a mente trabalha melhor.

Como cuidar do social para não esquecer que existe um mundo lá fora?

Dica 4) utilize a tecnologia a seu favor. Faça chamadas de vídeo com seus amigos e sua família que mora longe. Só de saber que alguém está preocupado com você, o coração se aquece.

Dica 5) brinque com os familiares e animais de estimação que moram com você. Esse é o convívio social que você terá garantido nos próximos meses. Role no chão, almoce junto, faça aquelas mesmas 3 sessões de 15 polichinelos lado a lado com sua namorada.

Dica 6) converse e cante com seus vizinhos. Pode ser pela sacada do seu apartamento ou na porta de casa, chamando o amigo que mora do outro lado da rua. Só não esqueça de manter 2 metros de distância!

Como cuidar do cognitivo para não perder o ritmo de trabalho/estudo?

Dica 7) inscreva-se em um curso on-line. Hora de estudar algo que você julga como uma habilidade a ser desenvolvida. Pode ser sobre ferramentas de tecnologia para continuar suas aula, agora à distância, ou sobre resolução de problemas matemáticos para o vestibular.

Dica 8) leia algumas páginas de um livro de sua preferência. Assim você fortalece algo que já considera bom em você, além de proporcionar ao cérebro fontes diferentes de informação.

Dica 9) escreva algo ou faça exercícios de alguma disciplina. Sabe quando você passa as férias sem estudar e, quando volta ao trabalho/aulas até sua letra não é mais a mesma? Então, não deixe isso acontecer agora: manter algum ritmo de estudo é muito importante para não perder os ganhos desses primeiros meses do ano.

Resumindo: o mais importante neste momento é ORGANIZAÇÃO. Crie uma rotina diária que, mesmo tendo prioridades ou preferências, tenha cada um desses 9 momentos ciados acima.

Este é o grande desafio: coordenar prioridades. Se você fica focado em uma só, enfraquece as outras. O ser humano é completo: não existe mente sem corpo, inteligência sem controle emocional, habilidade social sem auto conhecimento.

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Autor: 🤓Rafael Pellizzer, professor de matemática e coordenador pedagógico.

Rafael Pellizzer

DEMOCRATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

A democratização da educação e o acesso ao Ensino Superior Público no Brasil

Carlota Boto em seu artigo A educação escolar como direito humano de três gerações: identidades e universalidades, enquanto descreve o que seria a “escola ideal”, ela considera a Educação um direito humano, o qual deve estar ao alcance de todos os indivíduos.[1]

Não só Carlota Boto defende o acesso de todos à educação, mas também a atual Constituição brasileira a afirma. O novo texto constitucional – promulgado em 5 de outubro de 1988 – trouxe importantes vitórias como o reconhecimento da extensão dos direitos sociais, incidindo diretamente no campo educacional.

No art. 205, a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família, sendo fomentado e motivado com o auxílio da sociedade.[2]

O art. 208 estabelece as obrigações do Estado com a educação. O artigo afirma sete garantias à população. Dentre eles, a quinta se liga diretamente à questão do acesso ao Ensino Superior, em que nela há a “possibilidade de acesso à graduação e à pós-graduação”.[3]

No Capítulo 2 – Dos Direitos Sociais – inserido no Título 2 (Dos direitos e garantias fundamentais), o Artigo 6º determina que um dos direitos sociais seja a educação.[4]

Entretanto, que bom seria se tudo o que estivesse escrito no texto constitucional, ocorresse na realidade. A contradição é observada quando confrontamos a Teoria, isto é, a Constituição Brasileira, com a Prática, aquilo que se vê no cotidiano educacional. Sendo a educação um direito fundamental que deve ser assegurado, quando se passa à realidade, a maior parte do que se nota é um ensino público carente de recursos e de baixa qualidade. A “escola” brasileira convive com a organização ineficiente de um sistema educacional subdividido e desigual que oferece para os alunos pobres – em sua maioria – um ensino de baixíssima qualidade.[5]

A partir desses elementos, o acesso ao Ensino Superior (também garantido pela Constituição) é um dos problemas que envolvem a Educação brasileira, o qual se agrava ainda mais quando se trata do ingresso dos estudantes nas universidades públicas.

Segundo algumas pesquisas como as da GEA (Grupo Estratégico de Análise da Educação Superior no Brasil), o que se nota, atualmente, é a maior entrada de estudantes nas instituições privadas, em detrimento do baixo acesso às universidades públicas e federais. De acordo com os pesquisadores, “a relação entre oferta pública e privada observada na educação básica se inverte na educação superior, onde desde os anos 90 as instituições particulares contam com 75% da matrícula.”[6] A partir disso, é possível ver o quão baixo está o acesso ao Ensino Superior público no Brasil.

Outro aspecto importante é a porcentagem de alunos pobres no Ensino Superior público. Com base nos dados levantados pelo GEA, mais da metade dos alunos vem das classes sociais mais altas, enquanto os alunos pertencentes aos grupos mais pobres da população permanecem em minoria nas universidades públicas.

Porcentagem semelhante se vê também nas proporções dos estudantes originários das escolas públicas. De acordo com as estatísticas levantadas pelos pesquisadores, grande parte dos alunos que ingressam nas faculdades públicas brasileiras estudou em escolas particulares. Segundo o GEA: “É necessário inferir, portanto, que, para um aluno originário do ensino médio privado e pago, a oportunidade de chegar à educação superior, em especial em cursos de alta demanda, é várias vezes superior a de seus colegas originários da escola pública e gratuita”.[7]

Com base nesses elementos, cabe ao governo brasileiro refletir ou reconsiderar a estrutura da educação superior pública no país. É necessária e urgente a criação de uma série de medidas que articulem expansão e democratização da educação. Dessa forma, será possível fazer com que o Ensino Superior Público passe a promover a igualdade de oportunidades, acesso, inclusão e permanência para todos os futuros estudantes.[8]

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

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Referências:

[1] Carlota Boto. A educação escolar como direito humano de três gerações: identidades e universalismos. Educação e Sociedade. Campinas, v. 26, n. 92, p. 795.

[2] Eliana Franco Teixeira. O direito à educação nas constituições brasileiras. Belém, PA: UNAMA, 2001, p. 100.

[3] Idem, p. 110-111.

[4] Marcos Cezar de Freitas. História Social da educação no Brasil. São Paulo: Cortez, 2009, p. 320.

[5] Cadernos do GEA. n.1 (jan./jun. 2012). Rio de Janeiro: FLACSO, GEA; UERJ, LPP, 2012, v. Semestral, p. 6.

[6] Cadernos do GEA. n.1 (jan./jun. 2012). Rio de Janeiro: FLACSO, GEA; UERJ, LPP, 2012, v. Semestral, p. 5.

[7] Idem, p. 9-10.

[8] Idem, p. 10.

LITERATURA E EDUCAÇÃO

Era uma vez, uma casa qualquer, uma sala qualquer, um tapete qualquer, uma cartilha qualquer, uma revista qualquer, uns livros e papéis dispersos… tudo recheado de sinais, símbolos, números, imagens, signos, gente… tudo incompreensível… e uma criança, com os seus olhos cheios de vontade de saber o sentido de tudo… porque tudo neste mundo… tudo há de fazer sentido.

Mas, uma após outra, a bondade ou maldade, a beleza ou feiura de todos aqueles signos em rotação, como mundos girando em torno do Sol, dizia àquela criança: decifra-me ou devoro-te… E desta maneira, por conta do medo esfíngico dos contos de longes de areia e pirâmides, por conta do medo de ser devorada por uma vida sem sentido, que a vontade de criança se converteu, pouco a pouco, em um saber de tudo, em sentidos, em linguagens, em discursos – gesto, verbo, matemática, imagem, música, escultura, arquitetura, moda, trânsito… linguagens…

A criança que nos habita – que acorda em nossa memória e sonha em nossa imaginação – fez-nos, pois, leitores dos sentidos do mundo. Ganhamos de presente esse enigma da vida, mundo bordado pela humanidade osso a osso, caverna a caverna, fogo a fogo, linha a linha, signo a signo… mundo de linguagens, de discursos, de sentidos, de ideologias… mundo para se viver junto, mundo em que compartilhamos nosso sentido – nossas epifanias de ser, capazes de desvendar a nós mesmos e ao outro, a origem, a essência, a existência, o destino de tudo… Da criança que fomos, ganhamos um mundo de linguagens e de discursos… e, desse modo, de um deserto de existência, do saco da história de todos os discursos, no tempo certo, encontramos o sentido de nossa beleza:  as Artes…

Elas foram se acendendo devagar em meio a coisas comuns… tomando forma e iluminando os nossos olhos, tomando conta de nossa vontade, como um discurso de salvação, discurso de plenitude, como um cordão umbilical ou útero para nossa completude: o nosso paraíso terrestre. Urgentes, contemplando e construindo todo o Belo, seguimos em nosso encontro com o verbo original, com os números divinos, com as imagens, com os sons, com os aromas, com os sabores, com as arestas, com os gestos, com as emoções, com as razões, com o vinho dos deuses… esta satisfação de existirmos plenos, belos.

Como as outras Artes, a Literatura – nossa Arte do verbo –, aterrizou a sua história em nossa história, como discurso que pode nos salvar da vida vazia, nua, oca… e nos tem feito cada vez mais sábios, mais significativos, mais felizes. E, neste sentido, sem medo de me perder, digo que a Literatura é instrumento de nossa real salvação… não uma salvação para a eternidade que nos foi dada por Platão e pelas Religiões, não… a Literatura não é uma salvação para tanto… a Literatura nos salva para a vida finita que nos deu Aristóteles…. para este mundo sensível, de pessoas, de cultura, de ideologias, de política, humano, governado, em nossa verdade última, por Cronos e pelas Parcas… é para este mundo e neste mundo do tempo e da finitude, que a Literatura nos salva.
Salva, porque a sua Beleza nos espelha… porque é capaz de transformar a vida finita com sua infinitude de formas e sentidos que nasce da nossa belezura gostosa e safada… prazer estético que abre nosso riso para o Inverno, berço de gestação de ipês e azaleias… que abre nossos olhos para a economia, para a política, para a sociedade, para a cultura, para as ideologias, para a justiça social, para o amor… que abre nossos olhos para a história de todos os ismos… para a tolerância… para os nossos números e para os números do outro… para o nosso corpo e para o corpo social… para a igualdade e para os pilares de desigualdade… para o nosso lugar e para o lugar de todos os outros… para os átomos e suas junções de amor e separações de ódio… para o movimento do universo… água… terra… ar … fogo… éter… para o celeste, portanto, e para o que é telúrico… para a alma dos que creem… para os impulsos elétricos e para as reações químicas dos que não creem… tudo em seu sentido e em sua beleza… na dança do universo.

A Literatura nos permite saber… ela nos educa… como os olhos limpos daquela criança que nos habita, nos permite dar sentido a tudo; nos ensina “lançar mundos no mundo”… ideais mais belos que o de Platão… realidades mais belas que a de Aristóteles… nos permite compreender, “como dois e dois são quatro… que a vida vale a pena, embora o pão seja caro e a felicidade pequena”…

É a Literatura que nos educa para aceitarmos a resposta inusitada do espelho mágico: “– Espelho, espelho meu… existe alguém mais belo do que eu?” É da Literatura como espelho, labirinto de nossa solidão, que vem a resposta. E saltamos com a memória e com a imaginação, para a vida fora de nosso castelo de cartas marcadas, para fora da caverna de Platão, para descobrirmos o outro… para descobrirmos que somente no outro podemos nos educar e encontrar a nossa própria belezura e o sentido da vida social… já que é no discurso do outro que ganhamos de presente o nosso próprio sentido. Fazer sentido… é isso que nos educa… que nos pode contentar… acalentar nosso sono e nossa vigília todos os dias, aplacando nossa sede de existência, de alegria e de prazer.

Se, porém, em um país distante… muito distante… para lá da terra do nunca… bem além das palmeiras onde canta o sabiá… bem além dos sertões… bem além de Itabira… bem além de São Paulo, esta comoção da minha vida… bem aquém, porém, de toda nossa imaginação e desejo, a Literatura está sendo pisoteada com botas de sete léguas e cascos de mamutes… se neste lugar e tempo de além e aquém, os Educadores são vistos com desconfiança e desdém… apesar de ensinarem as flores vencendo o canhão… se neste país além, a falta de escrúpulos dos mercadores da vida tem convencido a muitos de que, mais que tudo, o que vale é o ouro do tolo…e um tolo eu absoluto que renega o outro… nessa terra do sem fim, ainda assim, fica patente a esperança daquela criança que nos habita, aquela que será sempre capaz de saber e dar sentidos a tudo e de construir e reconstruir um universo de boniteza e dignidade para todos, mundo que faça sentido com Arte… que seja pleno, porque educado pelos ecos de belezura da Literatura.

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Autor: 📖Charles Borges Casemiro, doutorando em Literatura Portuguesa pela USP, mestre em Literatura pelo Mackenzie e docente de Literatura Portuguesa no curso de Licenciatura em Letras no IFSP.

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FRACASSO ESCOLAR III

Parte III de V

Descrição e análise da escola

  1. a) Apresentação da E.E. Coronel Siqueira de Moraes

 Localizada no município de Jundiaí/SP, no bairro Vianelo, a Escola Estadual Coronel Siqueira de Moraes conta com um número total de 618 alunos. Trata-se de uma escola tradicional e conhecida na cidade (possui 121 anos de idade), mas que perdeu muito de seu prestígio, ao longo dos últimos anos, por causa da contínua precarização que vem sofrendo.

O bairro em que ela está inserida é predominantemente residencial, com saneamento básico em condições adequadas e localização privilegiada pelos meios de transportes, postos de saúde, hospitais, amplo comércio, entre outros. Atualmente, a maioria dos alunos pertence ao bairro, devido ao elevado número de apartamentos e casas ao redor. Outro ponto a ser destacado é que pela localização da escola, há maior preferência entre os alunos do Ensino Médio, porque trabalham ou fazem cursos técnicos nas proximidades da unidade de ensino

Ao longo do estágio, foi possível notar uma série de elementos positivos. Um deles é o incentivo aos projetos culturais como as artes cênicas (aulas e grupos de teatro), a pintura e a música, os quais unem alunos, professores e coordenadores da escola. Outra característica positiva é a presença de instalações desenvolvidas, que auxiliam tanto os professores, quanto os alunos – por exemplo, um auditório (com suporte especializado de som e luzes), um ginásio de esportes, um laboratório, uma biblioteca, uma sala de vídeo, entre outras. Além disso, a escola conta com o suporte e condições apropriadas para a inclusão de estudantes com deficiência física. No espaço de socialização dos estudantes, mensagens foram espalhadas pelo pátio como “nunca deixe de sonhar” e “aqui você é especial” (frases motivacionais para os educandos). Nos murais, convites são feitos para atividades extracurriculares – por exemplo, olimpíada brasileira de matemática das escolas públicas, fórum sobre a sexualidade na adolescência, teatro “O Cortiço” (obra selecionada para o vestibular), entre outros.

Por outro lado, alguns aspectos negativos também foram vistos. Um deles é a infraestrutura precária, por exemplo, torneiras quebradas nos banheiros, chão sujo, paredes com rachaduras, ausência de um ambulatório, carteiras gastas que necessitam de troca por outras mais novas, entre outros. Sabendo que há um baixo investimento do estado de São Paulo na educação pública, consequentemente, a precarização tende a recrudescer nas escolas estaduais. Segundo o diretor, a liberação de verba para a Escola Estadual Coronel Siqueira de Moraes é insuficiente para uma possível melhoria de qualidade da unidade de ensino. Além disso, ela conta poucos funcionários terceirizados, os quais estão sobrecarregados com muitas tarefas (pequeno contingente de trabalhadores em relação a um número elevado de estudantes). Com uma baixa – ou quase nula – entrada de funcionários por ano, às vezes, os professores têm que assumir outras funções que não competem à deles (bibliotecário, psicólogo, assistente social, entre outras).

Outro elemento que há de ser destacado é o alto número de grades que separam e dividem os corredores da escola. Locais como o ginásio, o pátio, a biblioteca e os laboratórios permanecem fechados com grades, correntes e cadeados, impedindo o acesso do aluno a estes espaços. A partir desses elementos, foi percebido que a escola está inserida dentro de uma lógica autoritária que cerca e determina os espaços que podem ser frequentados pelos estudantes, não havendo uma maior abertura para o livre acesso e circulação do corpo discente.

 

  1. b) Aprofundamento das observações realizadas

             O aprofundamento das observações está dividido em seis partes: a internalização do fracasso escolar, a perda da motivação dos professores, a rejeição aos alunos-problema, a falta de apoio à recuperação dos alunos, a nula concessão de “voz” aos estudantes e, por último, a influência da sociedade sobre a escola.

O “pontapé inicial” da análise das observações foi um debate realizado em uma sala do oitavo ano do Ensino Fundamental. O tema era fracasso escolar e muitas questões importantes foram levantadas ao longo da discussão com os alunos.

Antes de se iniciar o debate, foi escrito na lousa alguns termos como “vagabundo”, “burro”, “repetente” e “atrasado”. De início, os estudantes começaram a rir, identificando e relacionando eles próprios e seus colegas com estas palavras. Ao anotar duas perguntas na lousa, o comportamento de alguns alunos mudou radicalmente, passando da euforia e gozação para um elevado desconforto e irritação. A primeira pergunta foi: “como você se sente, ao ser chamado por esses nomes?” A segunda interrogativa foi: “e se eu dissesse que todos os que estão fora das escolas públicas veem vocês dessa forma?”

A partir da reação do corpo discente, foi possível distinguir dois grupos de alunos. O primeiro, rapidamente, posicionou-se contra o discurso negativo construído sobre eles, exclamando que iriam provar para todos que eles são bons alunos e não aquilo que falam sobre eles. Por outro lado, o segundo conjunto de estudantes não se mostrou indignado, passando a aceitar o discurso preconceituoso construído sobre eles. Entre os educandos deste grupo, notou-se uma clara internalização do “fracasso escolar”.

Ao ouvir as falas desses alunos, foi notado um dos grandes problemas levantados por Dante Moreira Leite em seu texto: a produção de um aluno desanimado em relação à sua escolarização. Infelizmente, estes educandos estão aceitando, passivamente, as visões “negativas” acerca de si mesmos, prejudicando-os ainda mais em sua aprendizagem, já que, de acordo com as palavras do autor, “se ocorre a acentuação das qualidades indesejáveis, é frequentemente impossível fugir a elas. (…) uma vez classificado como delinquente, o indivíduo não encontra, em si ou nos outros, elementos para buscar uma outra identificação”.[1]

Após a observação desse problema, foi feita uma entrevista com a vice-diretora, a fim de se conhecer quais são as maiores dificuldades da escola e suas causas. Segundo a vice-diretora, uma das maiores dificuldades é fazer com que os alunos gostem de estar em sala de aula, diminuindo o alto número de abandono escolar, além do fraco desempenho dos estudantes. Estabelecida como causa dessas dificuldades, ela frisou o baixo investimento do governo estadual sobre a educação pública, o qual resulta em uma séria consequência para as escolas estaduais: a sua precarização, aumentando o desprestígio e a falta de vontade dos alunos em frequentar a unidade de ensino.

Embora os apontamentos feitos pela vice-diretora, relativamente, tenham razão, devendo ser respeitados, ficar somente com eles como explicações ao fracasso escolar, faz com que esta pesquisa não saia do senso comum e da superficialidade sobre o problema. Na verdade, o objeto deste trabalho é multidimensional, apresentando uma elevada complexidade e amplidão de fatores que o produzem.

            Um desses fatores observados é a gradativa perda de motivação, assim como o aumento da desconfiança do professor em relação aos seus alunos. Cíntia Freller, ao longo de seu trabalho, percebe que, diante de uma série de experiências malogradas e frustrantes, o professor passa a ficar – cada vez mais – desanimado, gerando um quadro de descaso em relação ao corpo discente. O baixo salário, as péssimas condições de trabalho, a desvalorização de sua profissão, entre outros fatores alimentam e recrudescem sentimentos como o desânimo, a impotência e a apatia entre a classe docente. Durante a pesquisa, foi notado o quanto a visão de Freller é verdadeira: “ao se defrontarem com os limites de seu projeto normativo, e de ensino, os professores deslizam para práticas opostas: descompromisso, pouco envolvimento, apatia e descaso”.[2]

Uma das manifestações desse problema é o interessante projeto de ensino de História do professor D. (8º Ano), que poderia ser aplicado, porém, por causa da baixa confiança do docente em relação aos alunos, o projeto ainda continua no papel, não havendo vontade e motivação para praticá-lo em sala de aula.

Outro elemento observado no estágio – uma das repercussões do descaso do docente em relação aos alunos – foi a homogeneização do corpo discente efetuada pelo professor, em sala de aula. Pouco se preocupando para atender todos os tipos de alunos, as particularidades de cada estudante permanecem de lado. O que se viu, durante o estágio, foi uma uniformização das práticas e normas escolares, que não só homogeneizava um corpo discente heterogêneo, mas também prejudicava o desenvolvimento das potencialidades de cada educando.

Na Parte IV continuaremos com esta análise.

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

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Referências:

[1] Dante Moreira Leite. Educação e Relações Interpessoais. In (org.) M. H. Patto: Introdução à Psicologia Escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997, 3ª. ed., p. 315.

[2] Cíntia C. Freller. O trabalho com os professores. Histórias de indisciplina escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, p. 139-40; 166.

SMARTPHONES EM SALA DE AULA ?!

Eis a questão!

Percebam que eu falei smartphone e não celular. Isto porque os celulares, na verdade, os smartphones, se tornaram uma plataforma de trabalho. Através deles se faz pesquisas escolares, paga-se contas, pede-se comida, encontra-se caminhos, enfim, se faz uma infinidade de tarefas. A dependência por estes aparelhos só aumenta.

Eu que já fui completamente contra seu uso em sala de aula, passei a repensar minha posição e no momento estou até usando! Obviamente que ainda proíbo o uso para ligar e ficar em redes sociais, assim como o uso dos fones de ouvido. Porém, como ferramenta de trabalho utilizo em sala de aula; tudo bem que ainda estou usando de maneira tímica (disponibilizo listas de exercícios no google drive que eles acessam durante a aula para acompanhar a resolução), mas já é um começo. Além disso, estou desenvolvendo atividades para uso através dos smartphones no google forms. Cada vez mais estão sendo desenvolvidas mais atividades para uso através desses dispositivos (em todas as áreas).

Na verdade, enquanto educador, sempre me preocupei em encontrar maneiras de facilitar o aprendizado dos meus alunos: de que maneira certo conteúdo de química (minha área) poderia ser assimilado melhor? São muitas as ferramentas que um professor pode usar em sala de aula; e na minha opinião, os smartphones não podem ser desprezados. No entanto, mais que o simples uso por si só, minha grande preocupação é: como posso usar esta nova ferramenta de maneira produtiva? De que maneira ela pode contribuir com o aprendizado do aluno?

Dependendo da disciplina, os smartphones podem ser usados como uma excelente ferramenta de apoio: a pronúncia correta de uma palavra no inglês, mapas e relevo em geografia, pesquisas em história, laboratórios virtuais em química, enfim, são muitas as possibilidades de bom uso destes aparelhos; basta usar de maneira produtiva.

O fato é que não só os smartphones, mas todos os recursos tecnológicos estão auxiliando/promovendo uma grande revolução educacional (chamada por alguns de 4º revolução industrial/educacional). E, apesar da resistência de boa parcela dos professores (acredito que vem diminuindo), é inegável que está cada vez mais difícil proibir esta ferramenta em sala de aula. A própria lei que proibia seu uso foi revista.

O projeto de lei nº 860/2016 altera a lei 12.730/2007, que proibia o uso de celulares em escolas estaduais. Segundo o governo do estado de São Paulo, até outubro de 2018, sistema wi-fi e banda larga serão instalados em todas as 5 mil escolas da rede.

Assim como qualquer outra tecnologia, o uso por si só desta ferramenta não garante qualidade. Na minha opinião, o mais importante é desenvolver atividades que realmente contribuam para a ensino/aprendizado.

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Autor: 🔬Prof. Dr. Daltamir Maia, docente na área de Química no IFSP e autor de livros didáticos.

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CYBERBULLYING

Alerta aos pais e professores,

Cada vez mais cedo, crianças utilizam celulares e redes sociais e, infelizmente, não é todo conteúdo que nós, adultos, conseguimos acompanhar, orientar ou bloquear. E muitas vezes nos deparamos com situações que nem imaginávamos que aconteceriam com crianças a partir de 9 ou 10 anos. É isso mesmo…

Estamos vivendo numa realidade onde a precocidade infantil e a aceleração diária de nossas vidas nos impedem de estarmos juntos, acompanhando o que nossos filhos fazem na internet.

Atualmente, nos deparamos com um novo jogo de desafio virtual, a “Boneca Momo”, que a exemplo da “Baleia Azul” tem trazido pânico e colocado em risco a vida de crianças que dele participam. Representada por uma criatura medonha, magra, de olhos esbugalhados, ela se assemelha a uma mulher pássaro e faz referência a uma escultura japonesa, inspirada por uma lenda local.

Segundo informações, as crianças e os adolescentes são estimulados a telefonarem para um número desconhecido que os adicionam, e a pessoa, com voz fantasmagórica, se identifica como “Boneca Momo” e os induz a passarem informações pessoais e participarem de desafios de sufocamento e enforcamento.

Vamos orientar nossas crianças e adolescentes sobre o uso responsável das redes sociais e internet, e devemos estar alertas e atentos, nos envolvendo e fazendo parte desse universo fascinante e perigoso, fortalecendo assim a intimidade com eles e prevenindo perigos iminentes.

Outro dado importante: de acordo com um estudo realizado pela Intel, aqui no Brasil, em 2015, das 507 crianças e adolescentes entre 8 e 16 anos entrevistados, 66% disseram já ter presenciado casos de agressões nas redes sociais. E esses índices só aumentam.

Entre os casos mais relatados estão “falar mal de uma pessoa para outra”, “tirar sarro da aparência de alguém”, “zombar da sexualidade de outra pessoa” e “postar intencionalmente eventos em que um colega foi excluído”. São atitudes justificadas com três principais motivos: o primeiro como defesa porque alguém os tratou mal, segundo por simplesmente não gostar da pessoa e por último para acompanhar outros que já estavam fazendo tais agressões.

O que muitos não sabem é que qualquer prática de agressividade via internet é considerada um Crime Virtual, enquadrado em diversos Artigos do Código Penal. São atos chamados de Cyberbullying ou Bullying Virtual, ou seja, quando se utiliza dos instrumentos das redes sociais e internet para constranger, humilhar e maltratar suas vítimas, geralmente com conteúdos depreciativos, mentirosos, boatos, insultos sobre outros estudantes e seus familiares, e até mesmo sobre professores e profissionais da escola.

Os “Bullies”, como são chamados, apresentam atitude perversa e mal-intencionada. Muitas vezes os praticantes se “blindam” no anonimato ou por trás de apelidos (“nick names” ou “nicks” ou perfis falsos/fake)

O papel da família e da escola é orientar as crianças e adolescentes sobre essa prática e suas consequências, porque existe sim, idade e forma adequada de uso da web. Tudo depende da segurança dos pais, orientações claras e objetivas aos filhos e também supervisão contínua, de forma a garantir os benefícios e a afastar os riscos.

Estar atento ao comportamento online deles garante a prevenção para se evitar os conflitos, as possíveis punições judiciais (neste caso, aos próprios pais) e ainda mais importante, evitar uma tragédia.

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Autora: 🙋🏻Aline Pandolfi, psicóloga e orientadora educacional.

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Sugestões de aprofundamento:

“Os novos perigos que rondam nossos filhos – para papais do Século 21” – Tânia Zagury, Editora Bicicleta Amarela (2017)

“Bullying – mentes perigosas nas escolas” – Ana Beatriz Barbosa Silva, Editora Globo (2015)

REPORTAGEM SOBRE A BONECA MOMO

PESQUISA INTEL SOBRE CYBERBULLYING