DESIGUALDADE NA EDUCAÇÃO

A desigualdade na educação no Brasil e a atuação das iniciativas populares

De vez em quando, especialmente em época de eleições como a que vivenciamos agora, deparamo-nos com alguns dados alarmantes acerca da educação no Brasil, especialmente com aqueles rankings que, não mentindo, apontam o país como um dos piores em qualidade da educação no mundo. Apontam-se, também, países a frente do Brasil que sabidamente apresentam níveis de desenvolvimento econômico e social inferiores, com o intuito de alarmar ainda mais a situação. Não é mentira que os dados sobre educação no Brasil são de fato terríveis, no entanto, ao analisar Brasil em qualquer viés que se pense, o pensador crítico deve se perguntar: que Brasil?

Os dados mostram uma média, considerando um espaço amostral, e é certo que não aponta uma mentira, no entanto camufla uma desigualdade no acesso e na qualidade da educação fornecida aos nossos jovens. A “má educação” é aquela ofertada para a maioria menos abastada, empilhados nas escolas públicas estaduais e municipais, sem dinheiro para pagar uma escola particular. Longe de defender a privatização do ensino, que certamente aprofundaria ainda mais essa discrepância, excluindo por completo uma grande maioria de brasileiros que, via de regra, não teria qualquer acesso a um ensino fundamental ou médio. Mas aponto, aqui, a existência de uma elite, filhos dos mais endinheirados, com possibilidade de acesso a um outro perfil de educação: aquela que, ao mesmo tempo, fornece senso crítico e prepara o aluno para a qualificação que o ensino superior pode lhe proporcionar. É aí, no ensino superior, que o que era um já profundo buraco entre as classes se torna um verdadeiro abismo: se a educação privada parece ter um viés claro de ajudar seu aluno a passar no vestibular, ao contrário, na educação pública parece não haver viés algum. O que reflete, imediatamente, na oferta de serviços qualificados para a população, e consequentemente garante o status-quo, que aponta para uma concentração cada vez maior de renda nas mãos de cada vez menos pessoas. Se queremos de fato um país democrático, essa democracia deve sair do escopo político e adentrar, também e principalmente, nas questões ligadas à sociedade. E pelas razões apontadas nas linhas acima, deve-se entender a educação como a principal delas.

Não é uma causa perdida, caro leitor. Se existem políticas crescentes de sucateamento da escola pública e censura da sala de aula, com os abomináveis projetos de reforma do ensino médio e o terrível “Escola Sem Partido”; existem também algumas linhas de frente no combate a tal cenário de desigualdade no acesso ao ensino superior. Destaco inicialmente as cotas raciais e para alunos de escola pública, ambas bastante combatidas por aqueles a quem é interessante a manutenção daquele status-quo descrito rápida e grossamente acima, com argumentos e de formas diferentes. E além delas, existem as iniciativas do terceiro setor.

Os cursinhos populares, a maioria deles composta exclusivamente por professores e colaboradores voluntários, aparecem como uma alternativa para o aluno de escola pública conseguir preparar-se para as difíceis provas de acesso à universidade. O que parece a formação de um certeiro círculo virtuoso, no entanto, esbarra em diversas questões a serem conversadas, analisadas, e se preciso, norteadoras de mudanças drásticas nas formas de atuação dessas iniciativas. Este que vos escreve, caro leitor, participa ativamente de uma delas, na cidade de Jundiaí/SP: acompanhei doze anos de formação, adaptação, discussão, alteração, num ritmo muito mais rápido do que o leigo pode imaginar. Descobri que atuar na formação de uma educação popular vai muito além do que acontece dentro de uma sala de aula.

Vamos tomar como premissa o perfil dos alunos da iniciativa popular e das classes mais abastadas. O aluno da escola particular, a quem foi reservado secularmente o direito de acesso ao que de melhor há no ensino superior no Brasil, tem uma formação política, social e familiar diametralmente diferente do aluno da escola pública: este, via de regra, tem um histórico mais problemático de desestruturação familiar, menor poder e consumo, e justamente por isso, menor acesso a uma programação cultural diversificada. Não raro, esse aluno já trabalha, com 16 anos ou menos, para ajudar sua família no sustento da casa. Depende majoritariamente de transporte público, serviços públicos de saúde, tem moradia mais precária que o aluno do colégio franqueado. A partir disso, encontram-se os erros de uma iniciativa popular.

Primeiro erro mais comum: formação da “cultura do vestibular”. A questão da desigualdade no acesso à educação superior no Brasil é bastante antiga, e já bastante arraigada no imaginário popular. Mesmo com a oferta de iniciativas populares, e mesmo com a existência de programas das próprias universidades voltadas para auxiliar os alunos da rede pública de ensino e de baixo poder aquisitivo a continuar os estudos, a informação da existência disso não chega de forma satisfatória para aquele aluno do terceiro ano do ensino médio de uma escola estadual. Além disso, mesmo que ele saiba dessas possibilidades, há o ideário popular de que faculdade é “lugar de gente rica”, “lugar de playboy”, portanto longe da sua realidade. Ajudar o aluno a se preparar para o vestibular implica, muitas vezes, em antes disso mostrar o que é o vestibular, o que é a universidade. Às vezes, o campo de atuação do cursinho popular tem que ser longe do cursinho: tem que ser antes do cursinho.

Segundo erro: comparação. Não há razão alguma que justifique construir uma iniciativa popular baseada em experiências e vivências de um colégio privado. Ao contrário: ao tomar aquele colégio de franquia como exemplo do que deve ser seguido numa iniciativa popular, esbarra-se na questão de maior dificuldade de recursos, e portanto, os resultados serão significativamente inferiores – e a comparação será, fatalmente, negativa. Ao imaginar “nivelar por cima” a iniciativa popular, acaba-se, curiosamente, “nivelando-a por baixo”, na mais perfeita exemplificação de uma “síndrome de vira-lata”. São públicos diferentes de iniciativas diferentes: há que se respeitar as peculiaridades de cada uma das realidades distintas.

Terceiro: tratamento. É indubitável que os diferentes alunos precisam de didáticas diferentes em sala de aula: enquanto o aluno do colégio franqueado teve acesso às mais diferentes atividades de formação de senso crítico e uma gama diversificada de bibliografias que o ajudaram nisso, o atendido pela iniciativa popular, quando muito, teve um material didático, quase sempre mal usado na escola por seus professores, e de qualidade bastante duvidosa. Na iniciativa popular, faz-se necessário a criação de um senso crítico ainda bastante efêmero do egresso da rede pública de ensino, com a ampliação de atividades que trabalhem com a formação de opinião, debate, discussão e, especialmente, dissenso.

Por último, mas não menos importante: atuação política. Uma iniciativa popular, que tenha como objetivo máximo a redução das desigualdades no acesso à educação de qualidade, deve, através de seus voluntários de forma particular ou mesmo como instituição, participar ativamente das discussões acerca da educação, nas esferas pública e privada, especialmente na formação de leis públicas voltadas para a temática. Independente do viés político/partidário adotado pela instituição ou por seus membros, definitivamente, buscar esse objetivo é também lutar fora das paredes da instituição para que um dia essa luta acabe: caso contrário, estaríamos num eterno “enxuga-gelo”.

Não tenho dúvidas, caro leitor, de ter trazido aqui muito mais questões abertas e absolutamente distantes de um consenso e fórmulas prontas. Tentei, aqui, pontuar um pouco do que aprendi em doze anos – e contando – de atividade numa iniciativa popular, obviamente ainda cheia de estruturas a serem mexidas, adaptadas, transformadas. Também não peço a sua concordância em todos os pontos que levantei: prezo, aqui, também pelo dissenso que prezamos em sala de aula. Vamos conversar?

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Autor: 👞Rafael Galeoti, geógrafo e vice-presidente da ONG Cursinho Professor Chico Poço.

rafael galeoti