A IMPORTÂNCIA DO “OUTRO” NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Desde a constituição do ser humano, o Outro tem um papel fundamental. Primeiramente a mãe, o pai, a família e depois outras pessoas (babá, professores, colegas): são os Outros existentes na vida da criança.

E esse papel fundamental se justifica pela existência, sobrevivência e manutenção do desenvolvimento humano.

A existência e sobrevivência de um bebê que depende 100% dos cuidados do Outro, é compreensível e concretamente visualizado, pois um bebê abandonado numa lata de lixo morrerá em poucas horas. Mas o que seria essa manutenção como papel fundamental do Outro no desenvolvimento humano?

O ser humano se constitui e constrói sua personalidade através da interação que realiza com o mundo externo (o Outro). Mogli constitui-se menino-lobo através da interação com o Outro. Tarzan é mais um exemplo.

A manutenção que o Outro realiza na vida do ser humano decorre por todas as fases de desenvolvimento (antes do nascer até o final da vida). É o espelho, onde projetamos nossas necessidades e satisfações e nos reconhecemos enquanto humanos. É um elemento fundamental na constituição da saúde ou da patologia humana – lembrando que um sintoma é constituído por três bases (inato, ambiente e relações).

O grande desafio que o mundo contemporâneo nos traz é como garantir a manutenção das relações humanas, em tempos de relacionamentos no campo cibernético, individualizações aceleradas, desapegos afetivos, enfim, a solidão em meio à multidão. A tal da “modernidade líquida”, citada por Bauman, onde as relações humanas são encurtadas, porém transformadas e distorcidas, num mundo fluído, volátil, diariamente mutável.

Não culparemos os avanços digitais pelo afastamento das relações humanas, mas sim o comportamento diante desse avanço. O excesso, como em qualquer situação, tem trazido, principalmente às crianças, afastamentos dos vínculos afetivos, dificuldades de socialização e interação com outras da mesma idade, troca de brincadeiras ao ar livre, gerando inclusive malefícios à saúde física.

É fato que as amizades virtuais não substituem as reais: o olhar, o abraço, o sorriso ou o choro, não podem ser trocados pelos “emojis” que os representam sem a real emoção. No entanto, estudos científicos revelam que a liberação de oxitocina, mesmo em menor quantidade, faz mudanças nos padrões cerebrais, e isso pode ser um facilitador para as amizades reais.

Uma pesquisa feita pela Agência France Presse, mostra que amigos (laços emocionais verdadeiros), trazem qualidade de vida e longevidade. Ter um amigo reduz a probabilidade de a pessoa desenvolver depressão e duplica as chances de cura da pessoa deprimida em 6 a 12 meses. Essa relação afetiva dá a sensação de completude e alegria. Há liberações de oxitocina, cortisol e endorfina, hormônios responsáveis pela sensação de prazer e bem estar.

Para concluirmos, a única forma de garantirmos as manutenções de nossos relacionamentos, é nos aprimorando na arte de cuidar do Outro e dos sentimentos dele. Apreço, afeição, empatia, respeito, confiança, são algumas atitudes positivas que nos ajudam a lidar com as diversidades e adversidades que contemplam as relações humanas.

Segue um trecho do Poema “Mãos Dadas” de Carlos Drummond de Andrade…

“Não serei o poeta de um mundo caduco

Também não cantarei o mundo futuro

Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças

Entre eles, considero a enorme realidade

O presente é tão grande, não nos afastemos

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”

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Autora: 🙋🏻Aline Pandolfi, psicóloga e orientadora educacional.

aline

Referências Bibliográficas:

FREUD, S. “Obras Completas” – 2ª. Edição, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1987

WINNICOTT, D. W. “Os bebês e Suas Mães” – 2ª. Edição, São Paulo: Martins Fontes, 1999

BAUMAN, Z. “Modernidade Líquida” – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001

FERNANDES, E.G. “Solidão real na era digital”. Revista Psique Ciência & Vida, São Paulo: Editora Escala, Edição 148, Páginas 36-43, 2018

RODRIGUES, C. D. P. “Ciência comprova que amigos são essenciais”. Revista Psique Ciência & Vida, São Paulo: Editora Escala, Edição 151, Páginas 56-63, 2018