A POLÍTICA NA REFORMA DO ENSINO MÉDIO

O que se espera da educação? Dentre as tantas perguntas que podem nortear a reforma que, em breve, trará novas diretrizes ao ensino médio brasileiro, a que mais me parece fazer sentido é essa.

Para iniciar o debate que pretendo trazer, vou usar aqui três definições que considero importantes à discussão. A fonte é o dicionário do Google.

Política: habilidade no relacionar-se com os outros, tendo em vista a obtenção de resultados desejados.

Educação: aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano; pedagogia, didática, ensino.

Reforma: Mudança introduzida em algo para fins de aprimoramento e obtenção de melhores resultados.

A partir disso, percebamos o enorme impacto que existe em reformar a educação. Se partirmos do pressuposto de que a reforma se dará para a obtenção de melhores resultados temos aí um questionamento importante, afinal, resultados em que?

O adolescente hoje não tem mais os mesmos anseios que os adolescentes das gerações passadas. Se antes, no Brasil, a universidade era o caminho mais óbvio para conseguir uma condição de vida melhor, hoje os jovens pensam sim na USP e na UNICAMP, mas pensam também em alcançar seu sucesso ao tocar o negócio dos pais, estudar em universidades internacionais, morar um ano em outro país, fazer uma faculdade mais próxima da família, um curso técnico ou seguir carreiras que independam de um curso superior e tantas outras possibilidades que eu, da geração passada, nem consigo imaginar. Que tal ser um youtuber?

É fato então que as demandas são diferentes, e isso é importante, porque, no geral, não enxergo na educação brasileira uma oferta tão diferente da que existia nas décadas passadas. Será que estamos atendendo à demanda ou estamos forçando a aceitação do que temos oferecido? O que há é o embate entre as gerações, a do professor tentando convencer o aluno de que o currículo do ensino médio é importante e a do aluno tentando convencer o professor de que são outras as necessidades que o aluno espera que a escola contemple. Acredito, no entanto, que as visões dadas como antagônicas possam coexistir.

Sinceramente, vejo com excelentes olhos o que o currículo brasileiro oferece. Conhecimento vasto e multidisciplinar, que dá ao aluno uma visão muito ampla do mundo, só não sei se isso ainda é o bastante. O problema é que infinitas novas competências surgiram com as revoluções tecnológica e social de nossos dias, e essas estão de fora desse currículo, enquanto competências que não parecem mais fazer parte das necessidades educacionais estão presentes na escola e são requisitos para o sucesso escolar de um aluno.

Se esse contexto for realmente verdadeiro, precisamos mesmo de uma reforma na educação, para entregarmos aos alunos o que eles precisam para que se formem em sua plenitude. Esse seria, enfim, o resultado a ser melhorado. Como é o ensino médio o que mais sofre evasão, gera desinteresse e recebe críticas, talvez então realmente devamos começar por aí. Precisamos analisar e entender os pontos aos quais queremos nos dedicar e melhorar a partir dessa reforma, e isso é essencial. Os quadros políticos brasileiros, porém, são pouco claros, e isso nos traz uma enorme questão, pois são eles que definirão os efeitos da renovação educacional.

Sendo a política o conjunto de ações tomadas para alcançar objetivos, terá a política educacional do novo ensino médio a preocupação de ser a mais eficiente para a educação em seu sentido emancipatório ou terá por objetivo a reformulação do currículo para alcançar os objetivos dos grupos políticos que estejam desempenhando o poder no momento dessa reforma? Se a primeira for verdadeira, requer participação popular intensa e caráter apartidário, com o potencial de ser muito positiva. Se a segunda for verdadeira, será na verdade uma antirreforma. Não trará melhores resultados na formação dos estudantes, mas sim na contemplação de uma agenda política.

No caso da reforma apresentada, não é o caso de descreve-la aqui, a impressão que tenho é a de que vamos podar talentos, fragmentar o conhecimento e segregar ainda mais a sociedade, e, por isso, enquadro a proposta na classificação de antirreforma.

Os estudantes mais pobres, que precisam de um caminho mais rápido de acesso à renda, nesse novo modelo, estarão emancipados ou reféns do viés profissionalizante do ensino médio para que possam trabalhar com certo imediatismo? Os que se decidirem, aos catorze anos, por um dos ramos flexibilizados como o de ciências humanas, poderão se arrepender e perceber, aos dezessete, que suas ideias mudaram e se apaixonarem pelas biológicas? O aluno indeciso terá a oportunidade de debater mais profundamente cada área do conhecimento antes de tomar sua decisão? Qual a oportunidade de um aluno se interessar por uma disciplina que, até então, não fazia sentido, mas que no debate aprofundado passou a soar tão interessante, já que ele optou por reduzi-la em sua ramificação especializada? São essas as questões nas quais pensei em alguns minutos, durante a finalização desse texto, e elas, tão imediatistas, já me causam grande preocupação.

A impressão inicial é a de que o poder público responsabilizará os estudantes para que decidam definitivamente seu futuro antes de serem considerados aptos, pelo mesmo poder público, a dirigir, votar ou assistir ao novo filme do Deadpool. Soa como um contrassenso, mas é o que, aparentemente, será aprovado. Há política em cada uma de nossas ações, desde a forma como entoamos o bom dia aos colegas querendo mostrar o quão cansados estamos em agosto até o voto quando queremos eleger nossos representantes. Todos agem politicamente, o tempo todo em busca de seus interesses. O debate deve surgir então com a necessidade de desvendarmos quais os agentes e, principalmente, quais os interesses por trás desta dita reforma. Uma agenda política momentânea e pontual não pode determinar o que será da educação para as próximas décadas, a sociedade é dinâmica e requer um estudo muito mais profundo para ser praticada do que uma medida provisória assinada por um presidente provisório.

Para terminar, se educação é mesmo o conjunto de técnicas para o desenvolvimento pleno dos indivíduos e da sociedade, deveríamos sim atualizar o modelo escolar brasileiro, pois o mundo mudou muito desde que modelo atual foi imaginado. Há demandas socioemocionais, tecnológicas, éticas e sociais urgentes que deveriam ser introduzidas em nosso já rico currículo. Retirar do aluno, no entanto, o acesso ao conhecimento das ramificações que ele não escolher e prometer o aprofundamento em sua predileta é capcioso, uma vez que a privação de ensinamentos já trabalhados parece um retrocesso e o aprofundamento iria requerer espaço, investimentos, tecnologia, formação docente e pesquisa, todos muito incertos em nossa realidade atual e ainda mais incertos na realidade futura, em que o investimento em educação também se vê congelado com a PEC do teto de gastos.

Se precisamos reformar a nossa política educacional, nos resta responder ao questionamento inicial desse texto para saber claramente onde queremos chegar com a reforma e definir, afinal, o que esperamos de nossa educação. Assim sendo, poderemos agir da melhor forma possível para que a definição apresentada aqui possa ser um interessante ponto de partida para a renovação do ensino: o desenvolvimento pleno.

▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪▪

Autor: 😎Guilherme Borçal, geógrafo, professor de Ensino Médio e cursinho pré-vestibular.

1112