ENSINO ATRAVÉS DE PROJETOS I

Ensino através de projetos de trabalho: uma mudança necessária?

Defendo a tese de que a Educação Brasileira está dividida em duas grandes zonas: a do conforto e a do desconforto. A primeira está relacionada ao ensino tradicional, por muitos anos já estabelecida e bem consolidada, a qual contém um repertório vasto e mais “calejado” contra qualquer imprevisto na sala de aula. Do outro lado, encontramos as propostas inovadoras de ensino e aprendizagem que, na maioria das vezes, faz os narizes dos educadores ortodoxos torcerem com mais força, devido às mudanças reivindicadas no espaço escolar.

O conforto do ensino tradicional se baseia na ideia de que o professor é o centro da sala de aula, atuando como um verdadeiro “capitão” que emite “ordens” para os seus alunos (passivos e silenciosos), a fim de que façam as suas tarefas e cumpram todas as metas impostas pela disciplina. Nesse modo de ensinar, não há questionamentos, nem contribuições do corpo discente, que podem dinamizar e inovar não só as formas de aprendizagem dos estudantes, mas também os planos de aula e a postura adotada pelo educador.

No entanto, a zona de conforto escolar não está “imune” ao contínuo e (felizmente) ininterrupto avanço das propostas inovadoras de ensino, as quais a retiram de seu conforto habitual e cotidiano. Uma delas é a proposta de ensino através de projetos de trabalho, apresentada e defendida por uma série de autores importantes do campo das Ciências da Educação (como o estudioso Fernando Hernández).

Antes de desenvolver o tema proposto nesse artigo, é importante elaborar as seguintes questões: será que vale a pena mudar o ensino? Por que não ficamos com os modos pedagógicos mais tradicionais? Para que arranjar uma “dor de cabeça” a mais, se já temos inúmeras fórmulas prontas sobre como lecionar, avaliar as atividades dos alunos e planejar as aulas? O ensino através de projetos de trabalho é uma mudança necessária?

Respondendo a última pergunta: sim, eu diria que é mais do que necessária. Em outras palavras, tal alteração é urgente. Estamos diante de um cenário escolar de elevada passividade dos alunos, a qual produz – crescentemente – desânimo e desinteresse entre eles, ingredientes básicos para a formação de uma postura tóxica e aversiva dos estudantes em relação à sua escolarização. Sendo assim, propor um projeto de trabalho para os estudantes é iniciar um tipo de ação em que eles serão o centro da relação pedagógica, fazendo com que cada um potencialize a sua autonomia e proatividade, em direção ao cumprimento das metas e dos objetivos definidos por eles.

Baseado nesses elementos, em uma entrevista com o educador Fernando Hernández para a Revista Bem Legal (da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), logo na introdução do texto a proposta de ensino através de projetos de trabalho recebe uma importante defesa:

“A educação tem recebido atenção de diversos setores da sociedade no cenário atual. Hoje, mais do que nunca, discute-se a necessidade de se revisar os conteúdos curriculares na escola e de se encontrar maneiras de desenvolvê-los de forma que façam mais sentido para o educando. O mundo contemporâneo exige da escola e de seus agentes a capacidade de transformar o aprendizado em uma experiência mais dinâmica, centrada no educando, procurando criar mecanismos que possibilitem o desenvolvimento de competências como resolver problemas, pesquisar, colaborar e conectar a sala de aula com o mundo. O trabalho com projetos tem se mostrado uma abordagem adequada para esse fim por estimular em sala de aula um ambiente em que todos esses aspectos são considerados”.[1]

Além disso, o que acredito ser o ponto central dessa proposta, é que se trata de uma abordagem que vai na contramão do que é hegemônico e padronizado no espaço escolar. Segundo Hernández: “Estamos falando de uma perspectiva educativa que não segue o que é hegemônico e dominante na educação, que agora é guiado pelos resultados de provas padronizadas, confundindo, novamente, instrução com educação”.[2]

No ensino tradicional, por exemplo, as provas dissertativas são os instrumentos avaliativos mais utilizados pelos docentes, as quais fazem com que os alunos escrevam tudo o que “aprenderam” durante o bimestre (na realidade, o que decoraram na véspera do exame). Com isso, a avaliação do professor se reduz a uma só forma de observação do desempenho discente, a qual não oferece um diagnóstico mais amplo e rico de cada estudante, seja ressaltando as dificuldades que o impede (momentaneamente) de alcançar níveis epistêmicos mais altos, seja destacando as habilidades já obtidas ao longo de sua aprendizagem.

Em contraste com os modos tradicionais, os projetos de trabalho, por sua vez, possuem um teor processual e não fragmentado. Em outras palavras, a avaliação do professor não se limita a uma folha de papel ou a um único dia reservado no cronograma para o exame dos alunos, mas sim abrange todo o percurso de aprendizagem dos estudantes, do primeiro ao último dia dos projetos de trabalho acolhidos por eles. De acordo com os estudiosos Barbosa e Horn: “As aprendizagens nos projetos acontecem a partir de situações concretas, das interações construídas em um processo contínuo e dinâmico”.[3]

O diferencial nos projetos de trabalho é que o professor consegue visualizar, de forma mais clara, o quanto aluno está progredindo ou encontrando dificuldades em atividades como a pesquisa, o estudo dos dados coletados, a capacidade de trabalho em grupo, a habilidade de abstração dos conceitos ensinados e apreendidos, a participação em sala de aula e a análise crítica do objeto estudado. A orientação é a de que o educador não imponha uma nota sobre cada atividade, mas se preocupe mais em observar a trajetória e o processo de aprendizagem de cada educando, trazendo uma maior profundidade e amplitude à sua avaliação.

(Continua na segunda parte do artigo)

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Autor: 🤠Gabriel Zanni, historiador responsável pelo portal Logados na História.

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Referências: 

[1] Anamaria Kurtz de Souza Welp; Simone Sarmento; William Kirsch. Entrevista com o Professor Fernando Hernandez. Revista Bem Legal, UFRGS: Porto Alegre, v. 4, n. 1, 2014, p. 65.

[2] Idem, p. 66.

[3] M. C. S. Barbosa; M. G. S. Horn. Projetos Pedagógicos na Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 2008, p. 42.